
O bullying, uma das
mais graves formas de violência no convívio humano, afeta especialmente
crianças e adolescentes em idade escolar. Esse assédio contínuo ganhou
proporções alarmantes com a expansão das redes sociais nos últimos anos.
Antigamente, o fim das aulas representava um alívio psicológico para as
vítimas, um momento de pausa no sofrimento. Hoje, o assédio se estende
pelas 24 horas do dia, todos os dias da semana, eliminando qualquer
refúgio. Ele se estabeleceu na sociedade e na mídia de maneira
definitiva.
As consequências psicológicas são
devastadoras: baixa autoestima, depressão, ansiedade, autolesões e, em
casos extremos, tentativas de suicídio. Além disso, há impactos diretos
no desempenho escolar. O aluno começa a faltar às aulas com frequência, o
que, na maioria das vezes, evolui para o abandono definitivo dos
estudos. A criança ou adolescente que antes demonstrava entusiasmo e
disposição para frequentar a escola passa a rejeitar completamente esse
ambiente. Ele evita sair de casa, isola-se cada vez mais e adota uma
postura retraída, fechada e distante.
A reconhecida organização Libres de Bullying,
fundada pela psicopedagoga argentina María Zysman com o propósito de
prevenir, detectar e intervir em casos de bullying no ambiente escolar,
alerta que essa forma de violência pode ocorrer em qualquer espaço de
convívio entre crianças e jovens: na escola, no clube esportivo, em
centros de educação não formal ou mesmo online. “Crianças ou
adolescentes decidem, de forma mais ou menos explícita, isolar um
colega. Para alcançar esse objetivo, buscam, e conseguem, humilhá-lo por
meios emocionais, verbais, simbólicos ou físicos”.
Os agressores excluem ou isolam a vítima
do grupo, impedindo-a de participar de atividades coletivas; utilizam
apelidos pejorativos, insultos, zombaria, agressões verbais, emocionais,
simbólicas ou físicas, inclusive danificam objetos pessoais da vítima.
Cyberbullying
Com o avanço da tecnologia, surge o cyberbullying,
que amplifica o problema: por meio de chats, e-mails, redes sociais ou
sites, os agressores espalham rumores falsos, fotos ou vídeos
humilhantes. Diferentemente do bullying presencial, o cyberbullying
deixa marcas permanentes — o conteúdo fica registrado na internet,
acessível a qualquer momento, prolongando o sofrimento da vítima
indefinidamente e intensificando o dano psicológico.
Essa violência, exercida de maneira
intencional, gera profundos danos emocionais, psicológicos e até
físicos. A intimidação constante do agressor, somada à passividade ou
cumplicidade silenciosa dos espectadores (que, por omissão ou aprovação
indireta, reforçam o ciclo destrutivo), agrava a situação. As vítimas
perdem sua vitalidade, andam deprimidas, de cabeça baixa, com depressão,
dores de cabeça ou estômago decorrentes do estresse psicológico, e
escondem o problema por medo ou vergonha. Sem deixar de considerar a
perda de amigos…
Meninos tendem a sofrer mais bullying
físico, enquanto meninas enfrentam com maior frequência o psicológico.
Os motivos variam: aparência física, nacionalidade, gênero, deficiência,
religião ou qualquer característica que os agressores usem para
justificar a perseguição. Trata-se de uma conduta repetida e intencional
de um ou mais alunos contra outro, que não consegue se defender
sozinho, gerando os efeitos negativos já mencionados.
O bullying é muito mais comum do que se
imagina e representa, no âmbito educacional, um dos maiores desafios da
atualidade. Focar apenas no rendimento acadêmico, sem priorizar a
formação em valores como respeito, solidariedade e caridade fraterna,
resulta em uma visão limitada da situação atual da educação e do
convívio entre crianças e adolescentes.
De acordo com dados recentes da UNICEF e
da Organização Pan-Americana da Saúde, um em cada quatro adolescentes
na América Latina sofre bullying escolar, tornando a região uma das mais
afetadas pelo problema. Estudos anteriores, como os da ONG Plan International,
já apontavam a América Latina como a área com maior prevalência média
de casos de bullying. Especializada em direitos da criança, ela estima
que 70% das crianças sofreram, direta ou indiretamente, com bullying nos
últimos anos. Muitas vítimas tentam esconder a situação, sentindo-se
impotentes, envergonhadas, e não querem tornar seu sofrimento público
porque temem ser ridicularizadas ou sofrer algo pior.
A UNICEF lista alguns sinais de alerta que podem indicar que uma criança ou adolescente está sendo vítima de bullying:
– Marcas físicas inexplicáveis;
– Medo de ir à escola ou participar de eventos escolares;
– Ansiedade frequente;
– Poucos amigos ou isolamento social;
– Queda no rendimento escolar;
– Busca constante pela proximidade de adultos;
– Dificuldades para dormir;
– Queixas frequentes de dores físicas sem causa aparente;
– Uso excessivo do celular ou internet, com comportamento reservado sobre o que vê;
– Irritabilidade, agressividade ou explosões de raiva.
Apoio familiar e aproximar-se de Deus
María Zysman, fundadora da Libres de Bullying,
destaca com preocupação o aumento de casos de suicídio entre crianças e
adolescentes, um tema ainda tratado como tabu. Especialistas em saúde
mental observam, há anos, um crescimento alarmante de tentativas de
suicídio nessa faixa etária. “Muitas vezes pensa-se que o suicídio de
uma criança não é possível, mas está aumentando de forma alarmante.
Existem várias causas. O bullying pode ser um fator desencadeante, tal
como outros, para trazer à tona algo que já estava latente”, afirma
María Zysman. Ela também alerta para o cuidado ao divulgar esses tristes
casos, “considerando o impacto na vida dos colegas dessas crianças”.
Diante dessa realidade que pode surgir
em nosso próprio entorno, o primeiro passo é o apoio familiar: fazer com
que a criança ou jovem sinta que não está sozinho. Incentive-o a seguir
em frente. Ouvir, conversar e confiar um no outro gera um espaço para o
diálogo.
Em muitos casos, é essencial buscar
ajuda profissional: acompanhamento psicológico e, se necessário, médico.
Quando confirmado o bullying, deve-se informar imediatamente à direção da escola para que medidas sejam tomadas.
Quando os homens se afastam de Deus,
pior ainda, quando viram as costas a Deus, as consequências são o
desastre que vivemos, e o bullying é uma delas. A humanidade entrou num
precipício que, sem a graça de Deus, sem santidade, parece que ninguém
poderá deter o seu caminho fatídico.
Que a Virgem Santíssima, Mãe da Misericórdia, proteja todas as crianças, adolescentes e jovens dessa triste “epidemia” do bullying.
Por Pe. Fernando Gioia, EP.