segunda-feira, 2 de março de 2026

Bullying

 

O bullying, uma das mais graves formas de violência no convívio humano, afeta especialmente crianças e adolescentes em idade escolar. Esse assédio contínuo ganhou proporções alarmantes com a expansão das redes sociais nos últimos anos. Antigamente, o fim das aulas representava um alívio psicológico para as vítimas, um momento de pausa no sofrimento. Hoje, o assédio se estende pelas 24 horas do dia, todos os dias da semana, eliminando qualquer refúgio. Ele se estabeleceu na sociedade e na mídia de maneira definitiva.

As consequências psicológicas são devastadoras: baixa autoestima, depressão, ansiedade, autolesões e, em casos extremos, tentativas de suicídio. Além disso, há impactos diretos no desempenho escolar. O aluno começa a faltar às aulas com frequência, o que, na maioria das vezes, evolui para o abandono definitivo dos estudos. A criança ou adolescente que antes demonstrava entusiasmo e disposição para frequentar a escola passa a rejeitar completamente esse ambiente. Ele evita sair de casa, isola-se cada vez mais e adota uma postura retraída, fechada e distante.

A reconhecida organização Libres de Bullying, fundada pela psicopedagoga argentina María Zysman com o propósito de prevenir, detectar e intervir em casos de bullying no ambiente escolar, alerta que essa forma de violência pode ocorrer em qualquer espaço de convívio entre crianças e jovens: na escola, no clube esportivo, em centros de educação não formal ou mesmo online. “Crianças ou adolescentes decidem, de forma mais ou menos explícita, isolar um colega. Para alcançar esse objetivo, buscam, e conseguem, humilhá-lo por meios emocionais, verbais, simbólicos ou físicos”.

Os agressores excluem ou isolam a vítima do grupo, impedindo-a de participar de atividades coletivas; utilizam apelidos pejorativos, insultos, zombaria, agressões verbais, emocionais, simbólicas ou físicas, inclusive danificam objetos pessoais da vítima.

Cyberbullying

Com o avanço da tecnologia, surge o cyberbullying, que amplifica o problema: por meio de chats, e-mails, redes sociais ou sites, os agressores espalham rumores falsos, fotos ou vídeos humilhantes. Diferentemente do bullying presencial, o cyberbullying deixa marcas permanentes — o conteúdo fica registrado na internet, acessível a qualquer momento, prolongando o sofrimento da vítima indefinidamente e intensificando o dano psicológico.

Essa violência, exercida de maneira intencional, gera profundos danos emocionais, psicológicos e até físicos. A intimidação constante do agressor, somada à passividade ou cumplicidade silenciosa dos espectadores (que, por omissão ou aprovação indireta, reforçam o ciclo destrutivo), agrava a situação. As vítimas perdem sua vitalidade, andam deprimidas, de cabeça baixa, com depressão, dores de cabeça ou estômago decorrentes do estresse psicológico, e escondem o problema por medo ou vergonha. Sem deixar de considerar a perda de amigos…

Meninos tendem a sofrer mais bullying físico, enquanto meninas enfrentam com maior frequência o psicológico. Os motivos variam: aparência física, nacionalidade, gênero, deficiência, religião ou qualquer característica que os agressores usem para justificar a perseguição. Trata-se de uma conduta repetida e intencional de um ou mais alunos contra outro, que não consegue se defender sozinho, gerando os efeitos negativos já mencionados.

O bullying é muito mais comum do que se imagina e representa, no âmbito educacional, um dos maiores desafios da atualidade. Focar apenas no rendimento acadêmico, sem priorizar a formação em valores como respeito, solidariedade e caridade fraterna, resulta em uma visão limitada da situação atual da educação e do convívio entre crianças e adolescentes.

De acordo com dados recentes da UNICEF e da Organização Pan-Americana da Saúde, um em cada quatro adolescentes na América Latina sofre bullying escolar, tornando a região uma das mais afetadas pelo problema. Estudos anteriores, como os da ONG Plan International, já apontavam a América Latina como a área com maior prevalência média de casos de bullying. Especializada em direitos da criança, ela estima que 70% das crianças sofreram, direta ou indiretamente, com bullying nos últimos anos. Muitas vítimas tentam esconder a situação, sentindo-se impotentes, envergonhadas, e não querem tornar seu sofrimento público porque temem ser ridicularizadas ou sofrer algo pior.

A UNICEF lista alguns sinais de alerta que podem indicar que uma criança ou adolescente está sendo vítima de bullying:

– Marcas físicas inexplicáveis;

– Medo de ir à escola ou participar de eventos escolares;

– Ansiedade frequente;

– Poucos amigos ou isolamento social;

– Queda no rendimento escolar;

– Busca constante pela proximidade de adultos;

– Dificuldades para dormir;

– Queixas frequentes de dores físicas sem causa aparente;

– Uso excessivo do celular ou internet, com comportamento reservado sobre o que vê;

– Irritabilidade, agressividade ou explosões de raiva.

Apoio familiar e aproximar-se de Deus

María Zysman, fundadora da Libres de Bullying, destaca com preocupação o aumento de casos de suicídio entre crianças e adolescentes, um tema ainda tratado como tabu. Especialistas em saúde mental observam, há anos, um crescimento alarmante de tentativas de suicídio nessa faixa etária. “Muitas vezes pensa-se que o suicídio de uma criança não é possível, mas está aumentando de forma alarmante. Existem várias causas. O bullying pode ser um fator desencadeante, tal como outros, para trazer à tona algo que já estava latente”, afirma María Zysman. Ela também alerta para o cuidado ao divulgar esses tristes casos, “considerando o impacto na vida dos colegas dessas crianças”.

Diante dessa realidade que pode surgir em nosso próprio entorno, o primeiro passo é o apoio familiar: fazer com que a criança ou jovem sinta que não está sozinho. Incentive-o a seguir em frente. Ouvir, conversar e confiar um no outro gera um espaço para o diálogo.

Em muitos casos, é essencial buscar ajuda profissional: acompanhamento psicológico e, se necessário, médico. Quando confirmado o bullying, deve-se informar imediatamente à direção da escola para que medidas sejam tomadas.

Quando os homens se afastam de Deus, pior ainda, quando viram as costas a Deus, as consequências são o desastre que vivemos, e o bullying é uma delas. A humanidade entrou num precipício que, sem a graça de Deus, sem santidade, parece que ninguém poderá deter o seu caminho fatídico.

Que a Virgem Santíssima, Mãe da Misericórdia, proteja todas as crianças, adolescentes e jovens dessa triste “epidemia” do bullying.

Por Pe. Fernando Gioia, EP.

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Leão XIV e o mundo digital

Leão XIV e o mundo digital | Gaudium Press


O mundo moderno sofre de inúmeras “doenças”, entre elas, o Papa Leão XIV considerou uma muito difundida: “o cansaço de viver”, analisando-a como uma “realidade complexa, pesada e difícil de enfrentar” e, pior ainda, que diante dela, “ficamos insensíveis, adormecemos, com a ilusão de que, ao despertar, as coisas serão diferentes” (Audiência Geral, 25 de junho de 2025). Não deixando de lado uma das circunstâncias que contribuem para este “cansaço” em uma sociedade “cada vez mais digital, na qual as tecnologias, embora aproximem pessoas distantes, muitas vezes distanciam aquelas que estão próximas” (15 de julho de 2025).

Tivemos a oportunidade de comentar, em um artigo anterior, o grande desejo e a esperança do Santo Padre, pois “este tempo que vivemos necessita de cura” (3 de julho de 2025). Sim, pois a sociedade em que vivemos está doente e, mostrando uma de suas origens, afirmava que por causa da “bulimia” nas redes sociais, estando hiperconectados, somos literalmente bombardeados com notícias e imagens, quando estas não são falsas ou distorcidas.

Os benefícios da comunicação através das redes sociais e a vasta quantidade de informação disponível na internet são descomunais; o problema surge quando o uso excessivo leva ao vício. Esta foi a temática central da “VII Conferência Nacional sobre Vícios”, realizada no início de novembro em Roma. Os participantes se aprofundaram sobre os vícios tradicionais (como drogas e o álcool), assim como vícios mais atuais como o jogo e a tecnologia, com foco na prevenção e nos efeitos negativos sobre os jovens. Em uma mensagem de vídeo para os assistentes, o Papa Leão XIV afirmou como “o vício se torna uma obsessão, condicionando o comportamento e a existência cotidiana”, pois “vivemos em um mundo carente de esperança, no qual faltam propostas humanas e espirituais vigorosas. Consequentemente, muitos jovens pensam que todos os comportamentos são equivalentes, já que não conseguem distinguir o bem do mal e não têm noção dos limites morais”, portanto, é essencial “inspirar valores espirituais e morais nas gerações mais jovens, para que se comportem como indivíduos responsáveis”.

Entretanto, em outro encontro sobre “A dignidade das crianças e dos adolescentes na era da inteligência artificial” — promovido no Vaticano pela Fundação para o Estudo e a Pesquisa da Infância e da Adolescência —, o Santo Padre afirmou em seu discurso que: “A inteligência artificial está transformando muitos aspectos de nossa vida cotidiana, como a educação, o entretenimento e a segurança dos menores. Seu uso levanta importantes questões éticas, especialmente no que se refere à proteção da dignidade e do bem-estar dos menores. Crianças e adolescentes são especialmente vulneráveis ​​à manipulação através de algoritmos de inteligência artificial que podem influenciar suas decisões e preferências”. Em sua mensagem, ele ressaltou a necessidade de “uma educação digital”, compreendendo os riscos que “tanto o uso da inteligência artificial quanto o acesso digital prematuro, ilimitado e sem supervisão podem representar para os relacionamentos e o desenvolvimento dos jovens”. Concluiu que “somente com uma abordagem educativa, ética e responsável podemos garantir que a inteligência artificial seja uma aliada, e não uma ameaça, ao crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes” (13 de novembro de 2025).

Suas preocupações não se limitam a crianças e adolescentes. Pouco tempo antes, ele fez um alerta a centenas de estudantes universitários na Sala Paulo VI, no Vaticano, durante o Jubileu da Educação (30 de outubro de 2025): “Não deixem que o algoritmo escreva a sua história! Sejam vocês os autores: usem a tecnologia com sabedoria, mas não deixem que a tecnologia use vocês”. Destacando a natureza inovadora da inteligência artificial, ele disse que “não basta ser ‘inteligente’ na realidade virtual; é preciso ser humano com os outros”, enfatizando: “eduquem-se para humanizar o digital”, “em vez de serem turistas da internet, sejam profetas no mundo digital!”.

Tantas são as intervenções de Leão XIV advertindo sobre os perigos do mundo digital que já circulam rumores sobre o tema que tratará em sua primeira encíclica. Alguns até especulam sobre seu possível título: “Magnifica Humanitas”, na qual poderá abordar questões antropológicas, com especial atenção para a inteligência artificial. O título destacaria a convicção de que a dignidade humana segue sendo “magnífica”, em uma época em que o poder da tecnologia parece ameaçá-la e até mesmo remodelá-la.

O Sumo Pontífice, Leão XIV, não aborda estas realidades como alguém que sente aversão à tecnologia — especialmente às novas tecnologias que surgiram — diríamos como um “tecnofóbico”. Vimos em alguns de seus muitos pronunciamentos sobre o assunto que ele reconhece os benefícios da tecnologia, mas, ao mesmo tempo, expõe as distorções que ela cria. Ele reconhece sua eficiência e alcance, mas ressalta que ela não pode substituir as capacidades exclusivamente humanas, seu comportamento e responsabilidade moral, visto que uma dependência excessiva da inteligência artificial acaba por enfraquecer o pensamento crítico e as habilidades criativas.

Lhe preocupa esse fenômeno, como podemos ver em sua resposta à jornalista Elise Ann Allen, autora do livro-entrevista “Leão XIV: Cidadão do mundo, missionário do século XX”, no qual asseverava: “Será muito difícil descobrir a presença de Deus na IA. Nas relações humanas, pelo menos podemos encontrar indícios da presença de Deus”, destacando que, “se a Igreja não se pronunciar, ou se ninguém se manifestar sobre isso, embora a Igreja deva certamente ser uma das vozes aqui, o perigo é que o mundo digital siga seu próprio caminho e nos tornemos peões, ou sejamos relegados ao esquecimento” (18 de novembro de 2025).

(Publicado originalmente em ‘La Prensa Gráfica’ de El Salvador, 1º de fevereiro de 2026)

Por Padre Fernando Gioia, EP

 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Escutar João Batista no Advento

 

O Advento é o tempo propício para colocarmos a "casa" em ordem aguardando o nascimento de Jesus em Belém. São quatro semanas em que a liturgia prepara o nosso interior, a fim de recebermos o recém nascido envolto em paninhos, e depositado numa manjedoura de uma noite fria de inverno.

São João Batista, aquele que prepara os caminhos do Senhor, nos exorta a uma mudança de atitude. "Preparai os caminhos do Senhor, e endireitai suas veredas". (Is 40,3)

Este tempo que antecede o Natal nos oferece a oportunidade de avaliarmos como anda a nossa relação com o Senhor. Temos sido zelosos em nosso relacionamento com Ele? Estamos próximos de seu Coração, a ponto de nos sentirmos à vontade em sua presença, ou estar perto Dele nos inquieta?

Para os amigos íntimos, um olhar basta para expressar o que se traz no peito. Mas para os estranhos, às vezes, nem as palavras conseguem quebrar o gelo. O contato torna-se desconfortável, não há liga.

Se olharmos para João veremos um homem rude, sem uma formação esmerada, sem palavras com aquele impacto da oratória. Mas ele arde em zelo anunciando o reino que se aproxima, e atrai, com seu amor e convicção, uma multidão ao deserto. Todos querem ser batizados, todos querem saber como agir para alcançar a salvação de suas almas. E João lhes aponta: Ei-lo, eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

O Batista é o único dos profetas que aponta para o Salvador, e por isso é o último deles. Ele o reconhece, e admite, também, sua pequenez diante do Senhor da História. Ele afirma não ser digno nem de desamarrar suas sandálias... 

E eu e você? Estamos conscientes da grandeza deste mistério de luz? Temos algo para oferecer ao Rei que nasce pobrezinho e desalojado? Quem sabe a contrição de nossos pecados, ou umas mortificações e sacrifícios para nos assemelharmos um pouquinho a Ele?

Advento é tempo de preparação, de interiorização, de oração. Façamos companhia ao Mestre Menino, que veio para estar conosco e nos mostrar o caminho para estarmos com Ele para sempre! Para isso, preparemos os caminhos do Senhor e endireitemos suas veredas.

Malu Burin  

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Somos hipócritas? Existem hipócritas em nosso ambiente?

L'hypocrisie, personne ne l'apprécie et pourtant ! – Pépites

Hipócrita: expressão que qualifica a conduta pessoal manifestada entre homens e mulheres de todas as épocas, como consequência do pecado original. Surge nas relações humanas e persiste até nos círculos familiares mais íntimos. Desenvolve-se de modo contrário ao que se pensa ou se prega, com o intuito de enganar ou aparentar ser o que não se é. Ecoam aos nossos ouvidos, com veemência, as palavras enérgicas de Nosso Senhor Jesus Cristo ao increpar os fariseus: “hipócritas”, “raça de víboras”, “sepulcros caiados”. Por essa razão, qualifica-se analogamente a pessoa hipócrita de fariseu.

Todavia, a descrição dos seus traços característicos foi o próprio Jesus quem a fez, denunciando-os num longo oráculo que expõe à luz do dia a insinceridade dos chefes do povo e do próprio povo: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando disse: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15, 8). Perante as variadas acusações, os fariseus — movidos por uma ânsia doentia de vaidade e soberba, desejosos de atrair sobre si as atenções e ostentar superioridade — calavam-se, reservando a vingança para momento mais oportuno. 

Entre as invectivas mais fortes que Nosso Senhor proferiu contra eles, destaca-se a comparação com os sepulcros caiados: “por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão” (Mt 23, 27). Terrível comparação, entre outras, que se iniciam com a repreensão: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas”. Interiormente praticavam o que era contrário à Lei, mas exteriormente exibiam-se como seus exímios observantes; revestiam-se da Lei para encobrir o seu incumprimento. Por isso, Nosso Senhor afirmava: “Observai e fazei tudo o que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem” (Mt 23, 3).

Perguntemo-nos agora: existe, atualmente, um fermento farisaico — hipócrita? Haverá pessoas, inclusive entre os católicos, que manifestam propósitos em certos aspectos cotidianos, mas, por outro lado, vivem um relativismo moral em matérias mais graves? Passados mais de dois mil anos, esse fermento ainda se faz presente e perdurará até o fim do mundo. Oculta-se com extremo cuidado, pois, se não fosse dissimulado, deixaria de sê-lo. Corrompe como o fermento à massa, engana e ensina a enganar.

Dessa “lepra” — pois não merece outro qualificativo — não se pode afirmar que todo mundo aja assim, mas é certo que grande número de pessoas pode exibir fisionomias “mascaradas” (hypo, em grego, significa máscara): alegres, sorridentes, aparentando normalidade, mas, por dentro, cheios de podridão. 

Encontramos hipócritas em toda parte; por vezes, nós mesmos, em diversas circunstâncias, agimos hipocritamente para nos adaptar ao ambiente ou para não ferir os sentimentos alheios.

É duro dizê-lo, mas a hipocrisia — mentira e vazio unidos — poderia ser considerada a soma de todos os pecados. Ao contrário, a santidade, além de ser a verdade, contém todas as virtudes: “ser santos e irrepreensíveis”, nas palavras de São Paulo (cf. 1Ts 5, 23). Por isso, Jesus descreve suas características, exorta a não imitá-las, convidando a fazer o contrário dessa conduta sinistra.

Por Pe. Fernando Gioia, EP

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

"O otimismo pode decepcionar, mas a esperança promete e cumpre", assegura o Papa Leão IV

Durante a Audiência Geral desta quarta-feira, 15 de outubro, o Papa Leão XIV refletiu sobre a diferença entre otimismo e esperança. O Santo Padre fez um convite aos 60 mil fiéis reunidos na Praça São Pedro, para que redescubram na Ressurreição a fonte viva que sacia a sede mais profunda do coração humano.

Livro publicado pela Editora Vaticana reune escritos e meditacoes do Papa Leao XIV 5

Não fomos criados para a falta, mas para a plenitude

Tratando sobre o paradoxo da vida humana, o Pontífice destacou que “nossas vidas são marcadas por inúmeros acontecimentos, repletos de nuances e experiências diversas. Às vezes nos sentimos alegres, outras vezes tristes… Vivemos vidas ocupadas, alcançamos objetivos elevados e prestigiados, mas continuamos suspensos, inseguros, à espera de sucessos e reconhecimentos que demoram a chegar, ou nunca chegam. Gostaríamos de ser felizes, mas é muito difícil alcançar isso de forma constante e sem sombras… Sentimos, no fundo, que sempre nos falta algo”.

Diante desse contexto, Leão XIV recordou que “não fomos criados para a falta, mas para a plenitude, para viver a vida e a vida em abundância”. Segundo o Papa, esse desejo profundo do nosso coração só pode ser plenamente satisfeito em Cristo, “não em cargos, nem no poder, nem nas posses, mas na certeza de que há Alguém que garante esse impulso constitutivo da nossa humanidade; na certeza de que essa expectativa não será desiludida nem frustrada. Essa certeza coincide com a esperança. Isso não significa pensar com otimismo: o otimismo muitas vezes nos decepciona, quando vemos nossas expectativas ruírem, enquanto a esperança promete e cumpre”.

Nosso Senhor Jesus Cristo é a fonte viva que nunca seca

O Santo Padre declarou ainda que “o Ressuscitado é a fonte viva que nunca seca nem sofre alterações. Ela permanece sempre pura e pronta para quem tem sede”. Em seguida fez a refletiu sobre as características de uma fonte de água: “Ela sacia e refresca as criaturas, irriga a terra e as plantas e torna fértil e vivo o que, de outra forma, permaneceria árido. Refresca o viajante cansado, oferecendo-lhe a alegria de um oásis de frescor. Sem água, não podemos viver”.

Logo depois, usou dessa analogia para falar sobre Nosso Senhor Jesus Cristo Ressuscitado. “Ele é a fonte que sacia nossa sede ardente, a sede infinita de plenitude que o Espírito Santo infunde em nossos corações. A Ressurreição de Cristo, de fato, não é um simples acontecimento na história humana, mas o acontecimento que a transformou desde o seu interior”.

A esperança que brota da Ressurreição de Cristo

O Pontífice ressaltou ainda que “Jesus Ressuscitado não lança uma resposta ‘do alto’, mas torna-se nosso companheiro nessa viagem, muitas vezes cansativa, dolorosa e misteriosa. Só Ele pode encher de água nossa garrafa vazia quando a sede se torna insuportável. Sem o seu amor, a viagem da vida tornar-se-ia uma peregrinação sem destino. O Ressuscitado garante nossa chegada, conduz-nos para casa, onde somos esperados, amados e salvos”.

Por fim, Leão XIV exortou aos fiéis para que deixem-se transformar pela esperança pascal, pois caminhar com Jesus ao nosso lado “significa experimentar ser sustentados apesar de tudo, saciados e fortalecidos nas provações e nas dificuldades que, como pedras pesadas, ameaçam bloquear ou descarrilar nossa história”. Concluindo, o Pontífice manifestou seu desejo de que “da Ressurreição de Cristo brote a esperança que nos faz saborear, apesar das fadigas da vida, uma profunda e alegre serenidade, aquela paz que só Ele poderá nos dar no fim, sem fim”. (EPC)

Gaudium Press