segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Os pais e a dinâmica do testemunho

Os sacrifícios que os pais fazem por seus filhos são um testemunho que nunca será esquecido, mesmo que negado em um momento de rebeldia

Escrevi sobre a importância dos filhos receberem um testemunho adequado dos pais, argumentando que a força desse testemunho seria maior que as influências recebidas do ambiente e dos meios de comunicação.

Fui questionado sobre o que seria esse “testemunho adequado”, que para alguns pareceu um conceito demasiadamente vago. De fato, existem muitas formas de se testemunhar, com efeitos diferentes dependendo tanto da pessoa que dá o testemunho quanto daquela que o recebe. Seria inadequado querer fazer um “manual do testemunho cristão”. Além disso, o testemunho não pode ser simulado, seguindo um plano para impactar o outro. Tem que nascer naturalmente, a partir da conduta que brota do íntimo de nosso coração.

Dito isso, sem desejar querer fazer um esquema, traço algumas características que, ao longo dos anos, tenho encontrado nas pessoas e encontros que me parecem ser testemunhos mais impactantes, no bom sentido, e adequados às pessoas. Insisto que não se trata de um esquema ou de uma “fórmula” a ser seguida, apenas a constatação de algumas evidências.  É
bom também esclarecer que essa reflexão vale para pais, mães e todos aqueles que se sentem chamados a dar um testemunho cristão.

Testemunhar a ação de um Outro

É comum que pais, professores e líderes queiram demonstrar a sua potência e coerência, mostrar o quanto são bons. É uma aspiração natural, que pode nascer de um justo desejo de se mostrar correto e confiável para aqueles que amamos ou de um não tão justo desejo de ser seguido e obedecido pelos demais.

Mas a primeira característica importante do testemunho cristão é justamente que retrata a ação de um Outro, não a nossa. É Deus quem age, ainda que por meio de nós e com a nossa colaboração. Isso faz toda a diferença. Se nossos pais são muito bons e muito fortes, sentimos a obrigação moral de sermos como eles. Quando nos percebemos ajudados e somos bem-sucedidos, essa obrigação moral conta como um grande incentivo. Mas, quando falhamos – e todos nós falhamos em algum momento – essa obrigação parece um peso a mais para ser carregado, um fardo e não um apoio. É uma experiência diferente daquela que transmitimos ao testemunhar que é Deus quem faz, por nós e em nós. Nesse caso, a alegria não deixa de existir no momento da coerência e do sucesso, mas existe uma possibilidade de ternura e amparo também na fraqueza. É uma vivência que suscita muito mais afeto e paz.

Em segundo lugar, esse testemunho refere-se a uma vida plena de sabor e de sentido. De que vale viver com responsabilidade, seguindo o que há de mais nobre na natureza humana, fazendo o bem aos demais, se a vida não tem sabor, é cinzenta e opaca, esmagada pelo peso dos acontecimentos? Muitas vezes é assim que os filhos veem a seus pais. Podem até se sentir imensamente gratos a eles por seus sacrifícios, mas não querem viver como eles.

É particularmente nessa brecha, a da aparente falta de sentido e sabor na vida e nos ensinamentos dos pais, que se infiltra aquilo que chamamos de “más influências”. Se a vida dos pais não vale a pena, parece justo procurar outros atrativos que ajudem a ser alegre, a obter a felicidade pela qual todo ser humano anseia. Nesse caso, não são os maus exemplos que são fortes, é o nosso exemplo de beleza que é fraco. E o bem e a verdade não conseguem se firmar se não estão iluminados pela beleza…

A semente de felicidade

É importante que os jovens recebam testemunhos tanto de coerência, compromisso com o que é bom e justo, quanto de felicidade, alegria de viver. Mas o primeiro testemunho é o da felicidade, pois quem é infeliz dificilmente poderá levar a felicidade a outros. Fique claro que a felicidade não equivale à satisfação de nossas vontades, lição difícil de ser aprendida por todos, ainda mais nesses tempos de hoje. Além disso, os sofrimentos da vida podem embaciar o brilho da felicidade, não seria justo ocultar essa verdade.

A questão é que, para os cristãos, a felicidade não se identifica com a simples satisfação das vontades ou ausência de sofrimentos. Somos felizes porque fazemos a experiência de sermos amados que preenche a realidade de sentido e a vida de sabor. E é por isso que também somos capazes de amar. Esse sentido e esse sabor não anulam a dureza da vida, mas nos permitem conhecer pelo menos uma semente de felicidade que tende a se expandir por toda a existência. É essa semente, grande ou pequena, depende das condições e da liberdade humana, que – com a graça de Deus – semeamos nos jovens com o nosso testemunho.

A coerência que importa

A coerência também é muito importante nesse testemunho. Contudo, a coerência que importa não é a do seguimento a regras e normas sociais, ou do esforço pessoal para chegar ao sucesso. A coerência que realmente importa é aquela do amor. Os cristãos anunciam o amor de Cristo, é fundamental que os jovens vejam nos adultos cristãos pessoas que agem segundo esse amor.

Amar também pode significar corrigir e exortar ao bem – e novamente falamos de coisas difíceis de serem compreendidas à luz da mentalidade dominante. Mas aqui não se trata de fazer discursos moralizantes, mas de ser capaz de sacrifícios e ternura diante do outro, daquele que amamos e daquele que vemos sofrendo – e daí tirar as consequências morais justas. Jesus diz que não há mérito em amarmos só os que nos amam (Mt 5, 38-48). Do mesmo modo, nosso testemunho cristão não parece verossímil se a correção ou o anúncio dos valores não vem antecedido por provas de amor e ternura.

Os sacrifícios que os pais fazem por seus filhos são um testemunho que nunca será esquecido, mesmo que negado em um momento de rebeldia. Para os filhos, a solidariedade que os pais prestam ao que sofre orienta toda uma vida voltada ao bem. Por outro lado, a intransigência, a norma proposta sem a devida ternura, a condenação que não aceita reconciliação, até o bem vivido como formalismo se tornam dúvidas e suspeitas que corroem a mensagem cristã e a formação humana, moral e espiritual, dos jovens.

O testemunho não pode ser fingido

Nos preocupamo-nos muito com a formação de nossos filhos, com as lições que transmitimos a eles, com a coerência moral que demonstramos. Contudo, nosso único grande desafio é aderir sempre mais a Cristo, deixarmo-nos determinar pelo Seu amor por nós… E, no devido tempo, respeitando a liberdade humana, tudo mais nos será acrescentado (cf. Lc 12, 29-34) – inclusive o testemunho que daremos a nossos filhos.

Francisco Borba Ribeiro Neto

 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

E Maria guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração (Lc 2,19)

  

Sergio Ricciuto Conte

Em abril, o Papa Francisco, em uma das catequeses semanais, refletiu sobre o lugar da Meditação no caminho cristão. Começou apontando que meditar – em sentido amplo – se encontra, em maior ou menor medida, em todas as religiões; que desde os primórdios a tradição monástica cristã e a dos “santos do deserto”, por exemplo, valorizam práticas contemplativas e meditativas de oração. Nas últimas décadas, além disso, meditar tem sido reconhecido como atividade significativa, mesmo por não religiosos (mindfulness). Isso, em si, é um bem. A prática laica da meditação nasce do reconhecimento de que a agitação, frenesi e barulho do dia a dia prejudicam nossa capacidade cognitiva, afetiva e mental, exigindo “voltarmo-nos para o silêncio”. Assim, meditar tornou-se sinônimo de autocuidado.

O Santo Padre nos alerta, contudo, para o fato de nós, cristãos, não confundirmos essa prática – tão acessível e difundida atualmente – com o meditar cristão. Se na primeira – meditação laica – o método (técnicas e posturas) torna-se mais do que um caminho, mas o próprio fim; na meditação cristã, por outro lado, o método é sobretudo um meio para se chegar a Cristo, para crescer no reconhecimento de sua Presença.

Nesse sentido, mais uma vez nos voltamos para Maria, com ensinamentos a registrar e seguir.

Diz-se que São José é o Santo do silêncio, mas não se deve esquecer que também Maria falava com ponderação e “tudo guardava e meditava em seu coração” (Lc 2,19). A jovem judia meditava as Escrituras no silêncio e orava quando fora visitada pelo Arcanjo Gabriel. Deixou-se iluminar pelo Espírito Santo quando recitou o Magnificat. Abriu os olhos e admirou-se (interessante que, em italiano, o verbo guardar significa “olhar”) das maravilhas que pastores e Reis Magos diziam sobre o recém-nascido. Foi transparente, como cabe às mães zelosas, ao menino Jesus no Templo sobre o que ela e José sentiram em Sua procura. Pediu um milagre e o obteve na festa de casamento em Caná; estava de pé, em sua última dor, observando o filho pendendo sobre a Cruz.

O silêncio em Maria é aquela atitude corporal e existencial de abertura e expectativa para com a realidade em sua totalidade, entendida como Mistério – porque Deus não se resume jamais a uma única palavra ou sentença. Ela “guardava tudo”, quer dizer, tudo é sinal e manifestação de Deus, portanto, tudo deve ser levado em consideração. Trata-se de um silêncio ativo, engajado, que não é sinônimo de “ausência de barulho”.

O Papa nos exorta a não adentrarmos nas práticas meditativas apenas com o objetivo de desenvolver nosso “eu”. O cristão sabe-se fruto de um “relacionamento”. Na meditação cristã – no guardar tudo e acolher com simplicidade a presença desse Outro (Espírito Santo) que nos comunica de modos inesperados –, entregamos o nosso nada e recebemos nosso “eu” transformado, enraizado em Cristo. E isso, aprendemos com Maria.

Dener Luiz da Silva é professor de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O que é a vida consagrada?

O que é a Vida Religiosa Consagrada? « Padres e Irmãos Paulinos

O consagrado é alguém que abdicou de sua vida, de sua vontade própria, para entregar-se totalmente a Deus

“Veio o Senhor pôs-se junto dele e chamou-o como das outras vezes: Samuel! Samuel! Falai, respondeu o menino; vosso servo escuta!” (1 Samuel 3,10).

A Igreja viu nesta passagem bíblica, em que Deus chama por três vezes o menino Samuel, e faz dele um profeta, a imagem do chamado de uma pessoa à vida consagrada. Aquele que deve servir a Deus radicalmente, apartado do meio do povo, sem viver uma profissão secular, mas inteiro dedicado ao Reino de Deus. É Deus mesmo quem chama o consagrado, pondo no coração dele esse desejo, e dotando-o de dons adequados, como o celibato, no caso dos sacerdotes, freiras, monges e monjas.

O nosso Catecismo afirma que: “A vida religiosa faz parte do mistério da Igreja. É um dom que a Igreja recebe de seu Senhor e que oferece como um estado de vida permanente ao fiel chamado por Deus na profissão dos conselhos” (n.926).

São chamados a viver os conselhos evangélicos (pobreza, obediência e castidade). A profissão desses conselhos em um estado de vida estável reconhecido pela Igreja caracteriza a “vida consagrada” a Deus (Cat. n.915). Esses são chamados, sob a moção do Espírito Santo, a seguir a Cristo mais de perto, doar-se a Deus amado acima de tudo e, procurando alcançar a perfeição da caridade a serviço do Reino, anunciando a glória do mundo futuro.

A vida consagrada acontece desde os primórdios da Igreja. Muitos, por inspiração do Espírito Santo, passaram a vida na solidão ou fundaram famílias religiosas, que a Igreja, de boa vontade, recebeu e aprovou. Embora nem sempre professem publicamente os três conselhos evangélicos, os eremitas, vivem o silêncio da solidão, em constante oração e penitência, consagrando a vida ao louvor de Deus e à salvação do mundo. É uma vida de intimidade com Cristo.

Desde os tempos dos Apóstolos virgens e viúvas cristãs tomaram a decisão de viver no estado de virgindade ou de castidade perpétua “por causa do Reino dos Céus”. São aqueles que Jesus disse que se fizeram eunucos por amor do Reino (Mt 19,12).

O “Instituto secular” é um instituto de vida consagrada no qual os fiéis, vivendo no mundo, tendem à perfeição da caridade e procuram cooperar para a santificação do mundo.

As “Sociedades de vida apostólica, cujos membros, sem os votos religiosos, buscam a finalidade apostólica própria de sua sociedade e, levando vida fraterna em comum, segundo o próprio modo de vida, tendem à perfeição da caridade pela observância das constituições. Entre elas há sociedades cujos membros assumem os conselhos evangélicos”.

Os que professam os conselhos evangélicos têm por missão viver sua consagração e se entregar, de maneira especial, à ação missionária no modo próprio de seu instituto.

A vida consagrada é um sinal especial do mistério da redenção; uma vida seguindo e imitando a Cristo mais de perto, manifestando claramente seu aniquilamento, e estando mais presente às pessoas. O consagrado é alguém que dá testemunho de que o mundo pode ser transfigurado e oferecido a Deus com o espírito das bem-aventuranças.

O consagrado a Deus precisa, sobretudo, de viver intensamente uma vida de oração, rezando a Liturgia das Horas, participando dos Sacramentos, meditando diariamente a Palavra de Deus e bons livros, vivendo as virtudes opostas aos pecados capitais. Além disso, deve obediência a Igreja e a seus superiores.

O consagrado é alguém que abdicou de sua vida, de sua vontade própria, para entregar-se totalmente a Deus. É alguém que, mais que os leigos, aceitou “perder a vida para ganhá-la”. Aceitou “renunciar-se a si mesmo e tomar a cruz a cada dia e seguir ao Senhor” (Lc 9,16). Não se pode ser “meio consagrado”; ou se entrega a Deus totalmente, ou então se cansará de sua opção. É melhor viver como leigo do que ser mal consagrado. Além do que, o contra testemunho de um consagrado pesa muito mais que de um leigo, embora ambos sejam muito negativos.

Prof. Felipe Aquino

 

sábado, 7 de agosto de 2021