quarta-feira, 12 de junho de 2024

Conselhos de um monge do deserto

Santo Antonio do Deserto ou Antão do Egito | Arquidiocese de São Paulo

Esses apotegmas (ditos, aforismos, máximas) – ditos – são do Padre do Deserto Pai Antônio, O Grande.

Muito temos a aprender com esses homens que enebriados pelo amor a Deus e pelo desejo de tornar real o motivo da nossa existência, ou seja, conhecer, amar e servir a Deus; foram para o deserto e lá se encontraram consigo mesmos e sua limitações, travaram inúmeras batalhas, principalmente com os maus pensamentos e comportamentos e por fim se tornaram grandes mestres. É realmente uma pena que muitos tenham se esquecido da grande fonte de ensinamentos que os padres nos oferecem, ensinamentos fundamentados na experiência, em vivências reais de homens santos.

Se o ferro é negligenciado e não recebe a manutenção devida, à força de permanecer sempre abandonado sem servir a nada, acaba comido pela ferrugem e já não tem mais nem utilidade nem beleza. O mesmo acontece com a alma. Se ela permanece inerte, se não se dedica a viver na virtude e a se voltar para Deus, se ela se priva da proteção divina por causa de suas más ações, em sua negligência ela se destrói sob o efeito do mal que ataca a matéria do corpo como o ferro se destrói sob o efeito da ferrugem, e não possui mais nem beleza, nem utilidade em vista da salvação.

Dentre aqueles que se encontram num albergue, alguns recebem um leito, outros não o obtêm e deitam-se no chão, onde roncam tanto quanto os que dormem em sua cama. Após passarem a noite e deixarem pela manhã os leitos, eles partem juntos, cada qual levando apenas o que possui. O mesmo acontece com todos os que chegam a este mundo. Tanto os que viveram pobremente quanto aqueles que passaram a vida entre a glória e a riqueza, todos saem da vida como do albergue. Eles não levam consigo nada daquilo que fazia as delícias e a riqueza do mundo. Eles não levam senão suas próprias obras, boas ou más: aquilo que fizeram durante a vida.

Os homens não devem adquirir nada de mais. Se por acaso eles têm muito, será bom para eles saber que tudo nesta vida é, por natureza, corruptível, tudo desaparece facilmente, se degrada e se destrói. Assim, eles não devem se inquietar com o que quer que aconteça.

A marca da alma dotada de razão e virtuosa está no olhar, no caminhar, na voz, no riso, nas ocupações e nas conversas. Pois tudo se transforma e se readapta para se tornar mais nobre. O intelecto amado por Deus guarda suas portas, vigilante e sóbrio, interditando a entrada à infâmia dos maus pensamentos. 

O homem é o único ser capaz de receber a Deus. Ele é o único, dentre os seres vivos, com quem Deus conversa, à noite por meio dos sonhos, de dia através da inteligência. Assim, continuamente, Ele anuncia e apresenta previamente aos homens que são dignos disto os bens que os esperam.

A coroa da incorruptibilidade, a virtude, a salvação do homem, consiste em suportar as adversidades com coragem e gratidão. Dominar a cólera, a língua, o ventre e os prazeres, é também um grande auxílio para a alma.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Gozo da vida e perda do senso de transcendência

 Renascença - Os períodos da História da Música II

A concepção naturalista de vida que o homem renascentista possuía não se restringia ao espírito. Também fisicamente ele julgava que deveria ser perfeito. Seu ideal era ter saúde de ferro, compleição corporal esplêndida, ser ótimo caçador, abater javalis como quem mata formigas, saltar do cavalo, encontrar uma dama, fazer uma reverência e cantar um madrigal.

Depois de banquetear-se abundantemente, ir dançar como se nada tivesse comido. E, à noite, dormir um sono tranquilo. Eis o tipo clássico do renascentista.

Quase todos os monarcas da França daquele tempo eram grandes caçadores, guerreiros exímios, esplêndidos bailarinos, ótimos conhecedores de toda espécie de literatura e, em suas horas vagas, reis também.

Ademais, deviam ser falsos, dominadores e severos, mas, paradoxalmente, indulgentes para com certos vícios. Essa era a figura do rei perfeito.

Versão feminina do monarca, havia a rainha perfeita: majestosa, bela, distinta, inteligente, faceira e vaidosa. Não se exigia dela que cuidasse dos pobres, como o fazia Santa Isabel da Hungria, nem que fosse boa dona de casa, o que era ofício da criadagem. Bastava que se tornasse um excelente bibelô de salão.

O mesmo deveria dar-se, a seu modo, em todos os degraus da estrutura social.

Vida festiva, alegre e lampeira

Em suma, o renascentista é um tipo brilhante, inteligente, conversador, que tem uma obrigação de riso permanente.

Há diferentes modos de rir e poder-se-ia, mesmo, fazer a história através do riso: o riso discreto, o vulgar, a gargalhada boçal… O do homem da Renascença deveria ser um riso olímpico, prateado, cheio de orgulho e de condescendência, que sai dos lábios como uma música e repercute agradavelmente pelos lustres e pelos espelhos, sem cair até o chão.

Disto estão repletos os quadros que a Renascença nos legou: uma atitude superior, sobranceira, desdenhosa e otimista em relação à vida.

Como reflexo desse culto ao brilho pessoal, os salões tomam cada vez mais aspectos festivos, que atingirão o seu paroxismo no rococó, surgido no século XVIII.

Desaparece a noção de santidade

Naturalmente, em meio a tudo isto, vai deixando de existir a noção de santidade. Todos os homens, porém, têm coisas que eles reputam como ideais.

E os tipos representativos da sociedade, em lugar de serem santos, passam a ser pessoas dotadas daquilo que o renascentista chamava de “virtude”, e que o homem dos séculos XVII e XVIII veio a designar de “honestidade”.

A “virtude”, como eles a entendiam, não se encontra mais na pessoa boa que caminha para a sua verdadeira finalidade, mas naquela capaz de ganhar as grandes corridas da vida.

Esse modo de ser tem uma repercussão política curiosa. Ao se tomar como princípio que o homem completo é o possante e dominador, todo soberano, para ser perfeito, necessariamente deve pôr sua glória na guerra, que se apresenta, para o renascentista, não como um desastre, mas um modo de realizar este ideal.

Portanto, o conflito armado não será mais um ato que pode envolver pecado (a guerra injusta o é), mas uma brilhante aventura e quase um ato social onde, levado pelo otimismo, está-se mais ou menos certo que não se morrerá.

O rei não seria digno do cargo se não caminhasse para a batalha certo da vitória. Por isso, ele vai à guerra levando a corte, as senhoras, baixelas de ouro, prataria, toalhas de seda e rendas, e até orquestra.

Quando ele realiza um grande cerco, todas as senhoras, esposas e noivas dos oficiais vão apreciar, de uma certa distância, os belos feitos.

Os confrontos tomam o aspecto de uma bonita cavalgada, em que o rei se mostra olímpico. Se vencer merecerá a honra. Se perder, a desonra. Entretanto, não se cogita é se a guerra é justa, pois só o feito brilhante interessa. Nasceu, então, o militarismo e o nacionalismo. A ideia da autêntica fraternidade entre as nações cristãs desaparece.

Absolutismo e nacionalismo exacerbado

Em termos de política interna, esse mesmo espírito tem outras manifestações. Nesse tempo de admiração do homem olímpico, não se concebe respeito nem admiração pelos mais fracos. O rei olímpico não se sente obrigado a defender os direitos dos súditos. Pelo contrário, o próprio dele é ser o homem que consegue esmagar todos os outros.

Se há grandes senhores no seu reino, precisa achatá-los para provar que é poderoso. Se existem cidades ou corporações autônomas, deve reduzi-las à escravidão para provar que é um triunfador. Se há restos de liberdade, ele os extinguirá para mostrar que seu poder é colossal. E, enquanto ele domina, todos o admiram.

Deste estado de espírito olímpico, devia brotar necessariamente o absolutismo e originar-se o ocaso da sociedade orgânica medieval.

Olimpismo, naturalismo, complacência para consigo mesmo, no campo pessoal; no plano político, totalitarismo, nacionalismo exacerbado e espírito beligerante: eis algumas características marcantes do espírito da Renascença.

A partir dela, outras épocas históricas foram se sucedendo, com suas características específicas, até os nossos dias. As manifestações do espírito peculiar a cada uma dessas fases históricas, entretanto, têm um denominador comum: a volúpia pelo gozo da vida, e a perda do senso da transcendência que fez a glória da Idade Média.[1]

O verdadeiro católico deve se compenetrar de que não nasceu para o prazer, mas para o heroísmo. Diz a Sagrada Escritura que “a vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1).

De fato, o homem é criado para conhecer, amar, servir a Deus e, assim, salvar sua alma. Para alcançar esse supremo fim, precisa batalhar continuamente contra suas más inclinações e os inimigos declarados ou velados de Deus e de sua Santa Igreja.

Peçamos a Nossa Senhora que nos obtenha as graças necessárias para enfrentarmos essa guerra com ânimo forte e confiança inabalável.

Por Paulo Francisco Martos

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Cinco coisas que todo católico deve saber sobre o Espírito Santo

 

Pentecostes, dia em que os cristãos recordam quando Jesus, depois de sua Ascensão ao céu, enviou o Espírito Santo aos seus discípulos. Posteriormente, os apóstolos saíram às ruas de Jerusalém e começaram a pregar o Evangelho e “os que receberam a sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos”.

A seguir, são apresentados alguns pontos para entender quem é o Espírito Santo:

1. O Espírito Santo é uma pessoa

O Espírito Santo não é uma “coisa” ou um “que”, o Espírito Santo é um “Ele” e um “quem”. Ele é a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Embora possa parecer mais misterioso que o Pai e o Filho, é tão pessoa quanto eles.

2. É completamente Deus

Que o Espírito Santo seja “terceira pessoa da Trindade” não significa que seja inferior ao Pai ou ao Filho. As três pessoas, incluindo o Espírito Santo, são totalmente Deus e “há uma mesma divindade, igual em glória e coeterna majestade”, como diz o Credo de Atanásio.

3. Sempre existiu, inclusive nos tempos do Antigo Testamento

Embora tenhamos aprendido a maioria das coisas sobre Deus Espírito Santo (assim como sobre Deus Filho) no Novo Testamento, Este sempre existiu. Deus existe eternamente em três pessoas. Assim, quando ler acerca de Deus no Antigo Testamento, recorde que se trata das três pessoas da Trindade, entre eles o Espírito Santo.

4. No Batismo e na Crisma se recebe o Espírito Santo

O Espírito Santo pode estar ativo no mundo de formas misteriosas e que nem sempre se compreende. Entretanto, uma pessoa recebe o Espírito Santo de uma maneira especial pela primeira vez no Batismo (At 2,38) e, depois, é fortalecido com seus dons na Crisma.

5. Os cristãos são templos do Espírito Santo

Os cristãos têm o Espírito Santo, que habita neles de uma maneira especial e, portanto, existem graves consequências morais como explica São Paulo: 

“Fuja da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo”.

ACI Digital 

sábado, 11 de maio de 2024

Do ursinho de pelúcia...ao telefone celular

Dicas: 7 benefícios de se desconectar das telas - Criança e Consumo

Quando ouvimos a frase de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Deixai vir a Mim estas criancinhas”, vemos expresso o singular amor por elas durante sua vida mortal. Por essa razão, o Papa São Pio X, em 8 de agosto de 1910, estabeleceu, pelo Decreto “Quam Singulari“, que elas poderiam ser admitidas à Primeira Comunhão a partir dos sete anos de idade.

O evangelista São Marcos (10, 13-14) transmite a complacência de Jesus para com as mães que levavam seus filhos para que Ele impusesse as mãos, os abençoasse e os abraçasse. Mas os seus discípulos, contaminados com a mentalidade ambientalista da época, os afastavam. Diante disso, Jesus “zangou-se”, corrigindo a atitude errada com palavras severas: “não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham”.

Vemos essa inocência das crianças ainda hoje no convívio com elas: sua alegria e imaginação, sua felicidade de vida. Infelizmente, este decadente mundo moderno vem esmagando o maravilhoso que elas admiram.

Ao despertarem para o uso da razão, as crianças se deparam com uma coisa ou outra que as deixa extasiadas, e acrescentam aos objetos algo que não têm. Elas são introduzidas, fascinadas, em um mundo de maravilhas que, infelizmente, está deixando de existir. Seja uma girafa com seu pescoço alto, um beija-flor em seu voo elegante e ágil, uma simples formiga carregando uma folha, várias vezes maior que ela, ou uma borboleta com cores especiais; somente a criança – nos dias paganizados em que vivemos – mantém o seu encantamento indo além do concreto-concreto.

O fato é que as crianças têm uma capacidade imaginativa diante do entretenimento. Em sua plasticidade mental, por exemplo, quando brincam com um bichinho de pelúcia, transforma-o em uma brincadeira simbólica, chegando a torná-lo seu amigo. Se ele representa um animalzinho, digamos um ursinho, elas cuidam dele, alimentam-no, conversam e brincam com ele. Esse comportamento infantil faz com que desenvolvam diversas habilidades, inclusive a expressão verbal, pois, ao falarem com eles em voz alta, elas se escutam, aperfeiçoando sua linguagem e fala, evoluindo da compreensão das palavras para a própria comunicação, além de relaxá-las e regular seu estado emocional; sem deixar de considerar o desenvolvimento da sua criatividade e outros benefícios decorrentes dessa dinâmica.

Na fase de bebê, em que a figura da mãe marca presença com alimento, proteção, até mesmo com o calor do corpo, os bichinhos de pelúcia constituem uma forma de prazer e segurança, inclusive ajudando-os a dormir sozinhos.

Geralmente, os bebês começam a procurar esses objetos de apego por volta dos 9 meses de idade, desempenhando uma importante função psicológica, uma relação que abandonam entre os 4 e os 6 anos, quando entram na fase da sua autonomia, e a capacidade de socializar com outras crianças, tornando-se independentes. Gradualmente, elas se esquecem deles, mas os guardam em algum lugar do quarto.

Quando brincam, se as observarmos, compreenderemos o seu mundo interior – tão indecifrável – já que consideram os ursinhos companheiros de brincadeira, amigos inseparáveis ​​e até lhes dão nomes. Fenômeno qualificado, na psicologia evolucionista, como apego transicional, mas que cumpre uma função importante para o bebê ou criança, transmitindo segurança, proteção, companhia, fonte de prazer e forma de explorar o mundo ao seu redor.

Ao longo do último século, ocorreu uma revolução tecnológica, cada vez mais acelerada, que substituiu o ursinho de pelúcia, e pior ainda… as palavras, sorrisos e abraços, das crianças.

Os adultos têm cada vez menos tempo para se dedicarem aos seus filhos. Cuidando das suas coisas, optam por dar-lhes um aparelho para brincar ou, no caso dos mais velhos, deixá-los livremente em frente a uma tela, usando a tecnologia como “chupeta” emocional…

Opinião das Instituições de saúde

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França, as crianças de 2 anos de idade são expostas a telas por cerca de 3 horas por dia, enquanto as de 8 anos ficam diante das telas por quase 5 horas e os adolescentes por mais de 7 horas – o equivalente a um ano antes dos 7 anos de idade.

Com isso, elas perdem uma das coisas mais importantes: o vínculo afetivo, que influencia muitos aspectos da vida.

Assim, a Organização Mundial da Saúde recomendou que as crianças não sejam expostas a telas até os dois anos de idade, e que passem no máximo uma hora na frente delas entre os três e os quatro anos. Os especialistas esclareceram que “quanto menos tempo, melhor”.

A Academia Americana de Pediatria recomenda que nenhum dispositivo eletrônico seja usado antes dos 18 meses; entre 18 e 24 meses, se o conteúdo for adequado à idade, desde que acompanhado por um adulto; entre 2 e 5 anos, no máximo uma hora por dia, supervisionado por um adulto. A partir dos 6 anos, o tempo de exposição deve ser limitado, com conteúdos apropriados que não afetem o sono, a sociabilidade e a atividade física.

O motivo é simples: as telas têm um duplo efeito negativo, tanto pelo conteúdo que veem quanto pelas atividades que deixam de fazer para passar tempo com elas. Não brincam, não correm, não desenvolvem a imaginação, não interagem!

A relação entre o uso da tela e a saúde mental é uma das principais preocupações, não só pelo impacto que podem ter no desenvolvimento cognitivo, mas também por alterar a forma como adultos e crianças se relacionam. É fundamental que as crianças sejam capazes de olhar um rosto, interpretar uma emoção ao ver os gestos do interlocutor, principalmente da própria mãe. A criança é uma pessoa que deve ser ouvida e merece ser cuidada; ela precisa de contato social e comunicação para desenvolver as habilidades interpessoais, especialmente durante os primeiros anos. A idade pré-escolar é a fase em que o cérebro evolui mais rapidamente e as telas acabam por ter impacto no desenvolvimento neurológico, com efeitos negativos nas capacidades linguísticas, de leitura, emocionais, sociais e até motoras.

Se apenas oferecermos distração digital…, estaremos dando “junk food mental” para bebês e crianças pequenas. Quando as colocamos diante de uma tela, privamos essas crianças de experiências valiosas: expressões faciais, entonação vocal e linguagem corporal nas interações com seus pais.

Tudo isso, aproveitando a flexibilidade neuronal das crianças, não só é encantador, mas também auxilia no correto aprendizado e desenvolvimento de habilidades da criança. Caso contrário, o potencial dos seus primeiros anos será desperdiçado.

Quem tem problemas com o uso das telas são os pais, que os impede de interagir com os filhos. Muitos estão presos aos celulares e não conversam o suficiente com os filhos.

É crucial restabelecer as rotinas familiares, promover passeios em contato com a natureza e se desconectar das telas para se conectar com as crianças. Não nos iludamos, os pequenos aprendem mais por meio de experiências reais do que com uma tela.

Por Pe. Fernando Gioia, EP

 

domingo, 5 de maio de 2024

Quem tem a última palavra?

O santo sacrifício da Missa

 Enquanto houver neste vale de lágrimas um sacerdote que consagre o pão e o vinho, e fiéis que adorem a Jesus na Hóstia Santa, tudo podemos esperar!

Em nossos dias, os mais diversos e graves acontecimentos se sucedem de forma contundente, sem que as pessoas tenham tempo de digeri-los. Alguns são inesperados, outros tragicamente previsíveis. O desânimo, o desencanto, quando não, o desinteresse, costuma ser a resposta que os homens geralmente dão a esses eventos.

Outrora, a tradição era valorizada porque servia de guia para abrir caminhos para o futuro. No alvorecer do século XX, se apostou com frenesi na engenhosidade humana e nos progressos da técnica; acreditava-se que eles trariam a solução dos problemas. Mas descobriu-se que o remédio tão esperado não só não curou os males, mas, em grande medida, os multiplicou. Sobre isto, Bento XVI sabiamente escreveu: “A ambiguidade do progresso se faz evidente. Sem dúvida oferece novas possibilidades para o bem, mas também abre possibilidades malignas esmagadoras que não existiam antes. Todos nós testemunhamos como o progresso, em mãos equivocadas, pode chegar a ser e se converter em um aterrador progresso no mal. Se o progresso técnico não corresponde ao progresso correspondente na formação ética do homem, no crescimento interno do homem, então não é um progresso, mas uma ameaça ao homem e ao mundo.” (Encíclica Spe salvi, n. 22).

Hoje, para muitos, vale apenas o presente como ele é, de forma crua, sem esperança de mudança. Trata-se de “sobreviver”, sem um pensamento coerente, no marco de uma “religião light” que não comporte grandes compromissos. Se diria que chegou a hora de renunciar às ideias, à moral, às cerimônias, para dar lugar ao relativismo e à espontaneidade.

Este diagnóstico pode parecer demasiado pessimista, e a verdade é que há algo disso. Para que a análise crítica possa ser criteriosa, seria necessário considerar outro fato muito importante da situação: a resposta de Deus. Uma vez que o Criador existe – e quanto concordamos com isso – como podemos não contar com Ele?

O Santíssimo, Rocha Segura

Agora, numa sociedade tão arbitrária e mutável como a nossa, há algo seguro que permanece: o Santíssimo Sacramento. Tem sido assim desde os tempos apostólicos, assim será até o fim do mundo. A Igreja imortal, sobre a qual não prevalecem as portas do Inferno, vive da Eucaristia, esse alimento substancial que dá vida divina e é fonte constante de graças.

Assim, enquanto houver neste vale de lágrimas um sacerdote que consagre o pão e o vinho, e fiéis que adorem a Jesus na Hóstia Santa, tudo pode ser esperado. Sim, tudo: as regenerações mais extraordinárias e os benefícios menos imagináveis ​​pelos cálculos humanos.

Ao considerar a realidade contemporânea em profundidade, esta deve ser vista como uma moeda de duas faces. Um lado é essa crise patente e abrangente que apontamos. O outro é aquele que se esconde nos sacrários, nas almas eucarísticas, nos “tempos” providenciais de Deus que costumam demorar, mas acabam chegando (Deus está fora do tempo, daí as aspas).

Duas pequenas notícias recentes falam-nos dessa “realidade oculta”, digamos assim; foram publicadas no número 266 da revista Arautos do Evangelho de fevereiro passado.

Uma juventude especial

“Apesar da forte secularização, o número de devotos da Adoração Noturna na cidade de Barcelona não para de crescer. Em 2023, foram admitidos setenta novos membros, muitos deles jovens, durante a cerimônia anual realizada na Paróquia Santa Teresinha. Atualmente são mais de 350 fiéis inscritos para adorar o Santíssimo Sacramento na cidade, abrindo mão de algumas horas de sono para cobrir os horários da vigília que se prolonga das 22h às 6h, todas as noites do ano. Soma-se ao aumento de adoradores o aumento de capelas de Adoração Perpétua na região, que nos últimos anos passou de uma para dez”.

E agora, a outra notícia: “Uma pesquisa realizada pelo jornal católico ‘La Croix’ entre seminaristas franceses revelou que a concepção do ministério sacerdotal destes futuros clérigos difere muito dos padrões comumente aplicados à juventude contemporânea. Dos 434 seminaristas que participaram na pesquisa, 72% provêm de famílias que frequentam a missa dominical e 61% consideram que a família é o principal núcleo para a transmissão da Fé. Na verdade, para 36% deles a vocação foi delineada antes dos dez anos, e a figura dos pais foi importante na aceitação do chamado divino em 62% dos casos (…)”. Quanto ao futuro sacerdócio, 73% dos seminaristas pretendem usar batina regularmente, 48% pretendem vesti-la de forma habitual e 70% querem fazer da celebração dos Sagrados Mistérios e Sacramentos o centro de sua vida pastoral (…)”.

Estas informações não são desprovidas de interesse nem se tratam de casos isolados, são fatos sintomáticos. O mal é dinâmico e astuto, mas não tem a última palavra. O bem, por outro lado, é difuso e conta com a ajuda da onipotente graça divina. Quem está em vantagem? É enorme a fecundidade de benefícios que residem, por exemplo, nos seminaristas franceses ou nos adoradores catalães que perseveram em seus compromissos com o Senhor; são faíscas que podem desencadear um incêndio. Mas isso é dizer pouco.

Porque, em última análise, não será apenas pelo mérito de alguns clérigos ou leigos deste ou daquele país que a salvação chegará até nós… embora Deus utilize as causas segundas como instrumentos providenciais; haverá instrumentos, mas a salvação nos chegará de uma fonte sobrenatural: os Corações de Jesus e de Maria que pulsam em uníssono. “Por fim, o meu Imaculado Coração Triunfará”, disse Nossa Senhora em Fátima.

Deste triunfo vindouro são precursores os apóstolos eucarísticos que testemunham a sua Fé sem respeito humano, orando e trabalhando para alterar o curso da história, convencidos do ensinamento de São Paulo: “Tudo posso naquele que me conforta” ( Fl 4, 13). Sim, tudo.

Por Padre Rafael Ibarguren EP – Conselheiro de Honra da Federação Mundial das Obras Eucarísticas da Igreja.

Traduzido por Emílio Portugal Coutinho.