segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Na terra do descarte e da morte

Che diritti ha il bambino non ancora nato?

São João Paulo II, na encíclica Evangelium vitae (EV, 21), mostrou que o problema do aborto residia não apenas num ato isolado, realizado num momento de desespero, mas numa visão de mundo que abarcava todas as relações sociais: a cultura da morte.

Em nossa sociedade, analisava o Papa, quando o sentido de Deus foi perdido, também a percepção da dignidade da pessoa humana se viu obliterada. Em tese, nunca se valorizou tanto a dignidade e a universalidade da pessoa como em nossos tempos, mas a compreensão do que é ser pessoa foi reduzida. Só os que têm força para produzir, defender-se ou gozar a vida têm sua dignidade reconhecida. A criança ainda não nascida, o ancião no fim da vida, o paciente terminal, destituídos dessas capacidades, não têm a dignidade reconhecida.

Com os avanços da biologia, não pode haver objeção ao fato de que, na concepção, quando os gametas masculino e feminino se unem, forma-se um novo ser humano, uma nova vida, inclusive com um código genético diferente daquele de seus pais.

O verdadeiro debate é sobre a dignidade daquele ser humano recém-formado. Os defensores “da vida” reconhecem já ali uma pessoa humana com plenos direitos. Os defensores “do direito de escolha” querem que aquele ser humano seja entendido apenas como um amontoado de novas células humanas, sem dignidade ou direitos, sujeito à escolha de outros.

A cultura da morte é uma negação do princípio da dignidade universal e inviolável da pessoa humana. Só aqueles que são produtivos ou desejados têm sua dignidade reconhecida. Os frágeis e indesejados podem, segundo essa lógica, ser eliminados.

Longe de qualquer discussão confessional, a constatação da universalidade dos direitos humanos exige que se reconheça que aquele nascituro já tem direito à vida.                 

Uma plena compreensão do amor se torna impossível na cultura da morte. O amor atinge sua plenitude na doação gratuita de si a outro, algo que nunca poderá ser alcançado numa relação na qual se sujeita a vida do outro à sua vontade. Assim, a cultura da morte vai determinando um modo de se relacionar com toda a realidade.

Mesmo que usando uma palavra aparentemente menos forte, o Papa Francisco amplia nossa percepção da cultura da morte ao chamá-la de cultura do descarte, acenada na exortação apostólica Evangelli gaudium (EG, 53 e 195), explicadas nas encíclicas Laudato si’ (LS, 20-22 e 123) e Fratelli tutti (FT, 18-24). Numa época em que a sociedade se preocupa com o meio ambiente, quer evitar o desperdício e a geração de resíduos, o próprio ser humano passa a ser visto como um produto descartável, condenado ao esquecimento, à exclusão e à morte quando não interessa (LS, 120).

o Papa Francisco mostra como a cultura da morte se torna mentalidade cotidiana, atitude frente a coisas e pessoas. Sem o reconhecimento da dignidade original à qual todo ser humano tem direito, não há limite claro entre o lícito e o ilícito. Nosso voluntarismo passa a ser o critério último para todas as coisas. A mesma sociedade que defende o meio ambiente é aquela que mais polui. A mesma sociedade que exalta os direitos humanos é aquela que deixa refugiados morrerem, crianças famintas, velhos solitários à mingua.

Como enfrentar tal situação? Denunciar o erro e defender uma legislação que proteja a vida são passos irrenunciáveis nesse enfrentamento (EV, 68). Contudo, é necessário mais. Já na Evangelium vitae (EV, 88-90), São João Paulo II exorta-nos a realizar obras de acolhida a grávidas em dificuldades, casais que necessitam de orientação, idosos etc.

Bento XVI falava em superar o medo, com o reconhecimento da beleza da vida e a força da esperança.

Francisco exorta a “cuidar da fragilidade dos povos e das pessoas [… com] força e ternura, luta e fecundidade, no meio de um modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à cultura do descarte” (FT, 188). Lembra, ainda, que “para muitos cristãos, este caminho de fraternidade tem também uma Mãe, chamada Maria. Ela recebeu junto à Cruz esta maternidade universal (cf. Jo 19,26) e cuida não só de Jesus, mas também do resto da sua descendência (cf. Ap 12,17). Com o poder do Ressuscitado, Ela quer dar à luz um mundo novo, onde todos sejamos irmãos, onde haja lugar para cada descartado das nossas sociedades, onde resplandeçam a justiça e a paz” (FT, 278).

Francisco Borba Ribeira Neto

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

No silêncio, Deus fala


Transformou a procela (tempestade) em leve brisa, e as ondas do mar silenciaram. 
Is 106,29 

Eis uma arte necessária, difícil e até mesmo temida. Silenciar, muitas vezes, é considerado fraqueza, desistência ou até mesmo admissão de algo que na realidade não é verdade total. Mas muitas vezes precisamos silenciar, mesmo que tenhamos que pagar alto preço. O silêncio inquieta e torna-se uma resposta que confunde.

Nosso tempo nos pede insistentemente um "toma lá, da cá" de perguntas e respostas, justificativas e acusações, mas não devemos ceder a isso, não devemos entrar nesse jogo. Isso seria comungar com aquilo em que não acreditamos.  

Nesse turbilhão, a Palavra de Deus nos chama ao silêncio, à reflexão. Quem não silencia, comumente age no ímpeto de seus impulsos e acaba misturando tantas emoções e tantos descontentamentos, que vocifera contra alguém o tumultuado turbilhão de insatisfações interiores. Se gritamos, vociferamos com as pessoas, é porque trazemos isso dentro de nós.

O silêncio não é fraqueza, mas atitude privilegiada daqueles que desejam entrar em contemplação do mais belo dos mistérios: o amor imutável.   

Deus transforma tudo em brisa. É curioso que nós percebemos rapidamente as tempestades, as ventanias, mas muito lentamente percebemos o sereno silencioso que simplesmente toca carinhosamente a nossa face sem fazer nenhum barulho, nenhum ruído. Silenciar é acolher e filtrar na fé.

 Pe. Fábio Gleiser Vieira Silva

 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Como ser feliz no Matrimônio?

 Sacramento do Matrimônio- você sabe o real significado? Descubra! -  WeMystic Brasil

Depois de restituir ao matrimônio a sua original pureza, Nosso Senhor Jesus Cristo ensina que a inocência deve reger o ser humano em qualquer estado de vida.

No texto do Gênesis, encontra-se o princípio da criação, ou seja, o relacionamento que existia entre homem e mulher antes do pecado: união santa, monogâmica e indissolúvel, em total conformidade com a natureza de ambos.

Se esta situação foi alterada, deveu-se à dureza de coração das gerações posteriores, consequência da queda original. A mulher foi sendo paulatinamente relegada da consideração do homem e a poligamia — que teve sua origem na linhagem de Caim (cf. Gn 4, 19) — tornou-se um hábito generalizado em muitas civilizações pagãs da Antiguidade, e era tolerada, inclusive, entre os hebreus.

Mesmo sob o regime da Lei de Moisés, o trato dispensado ao elemento feminino estava marcado pelo desprezo. Nosso Senhor Jesus Cristo veio restabelecer a primitiva pureza da instituição do matrimônio.

O contrato natural elevado a Sacramento

Se o casamento é indissolúvel, o marido que se separa da mulher, ou vice-versa, e contrai uma nova união, comete adultério. Então, como é possível ser fiel no matrimônio? Seria suficiente restaurar o matrimônio em sua primitiva pureza ou haveria algo a acrescentar a esta visão essencial?

Só quando ambos se determinam a abraçar a cruz e carregá-la juntos, o matrimônio atinge sua plenitude e seu esplendor.

Não nos iludamos! Em qualquer estado de vida, o verdadeiro caminho a ser trilhado é o da cruz! Depois do pecado original, ela sempre estará presente no convívio social, havendo desavenças e desencaixes inclusive entre esposos.

Falsa seria a afirmação de que é possível existir um casal tão inteiramente harmônico, que cada um dos consortes nunca tenha de fazer esforço para adaptar-se ao outro.

Daí a importância do Sacramento, que “purifica os olhos da natureza, faz suportáveis as desgraças, enternecedoras as enfermidades, amáveis a velhice e os cabelos brancos. A graça torna o amor paciente. Ela o fortifica face ao choque dos defeitos com que ele se deparou”.

União de dois que resolveram abraçar juntos a cruz

Isto quebra a ideia romântica ― tão difundida pelas produções cinematográficas de Hollywood e pelas novelas televisivas ― de que a vida matrimonial é uma realidade feita de rosas…

Sim, há rosas perfumadas, de pétalas muito bonitas, mas com caules crivados de espinhos terríveis… Porque não existem dois temperamentos iguais! Se não há dois grãos de areia ou duas folhas de árvore idênticas, menos ainda duas criaturas humanas, pois quanto mais se sobe na escala dos seres, maior é a diferença entre eles.

A utopia da igualdade absoluta dos homens é uma loucura! Costumava dizer o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que Deus não é tartamudo e, portanto, não repete suas obras: “Cada ser é uma sílaba única e perfeita da ação criadora de Deus naquela gama, o que é verdadeiramente uma maravilha”.

Às vezes há processos de separação por causa de bagatelas.

Qual a raiz de tais desentendimentos? A dificuldade em aceitar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para nos redimir, bastaria que Jesus oferecesse ao Pai um gesto — pois todos os seus atos têm mérito infinito —, mas Ele preferiu padecer os tormentos da Crucifixão, o suplício mais ignominioso daqueles tempos, dando-nos assim o exemplo de como devemos abraçar a nossa própria cruz.

Age com grande insensatez quem se baseia na estrita beleza física ao contrair matrimônio, esquecendo-se de que, com o correr dos anos, a fisionomia e a pele vão adquirindo outra aparência…

Pior ainda é o erro no qual incorre quem se casa por sensualidade, acreditando na mentira de que a felicidade está em dar vazão a paixões voluptuosas no relacionamento matrimonial.

Neste não pode haver libertinagem; cada um deve respeitar a si mesmo e o outro, tendo como objetivo a prole. O que se fizer sem esta intenção é pura e simplesmente pecaminoso, como ensina Santo Agostinho:

“tudo quanto os esposos realizem contra a moderação, a castidade e o pudor é um vício e um abuso, que não provém do autêntico matrimônio, mas sim de homens mal refreados”.

Soltar as rédeas das paixões é inconcebível em qualquer circunstância, pois o combate a elas é o cerne de nossa luta e de nossa cruz.

Peçamos o indispensável amparo da graça para conservarmos intacta a inocência, ou para reconquistá-la, e sejamos arautos da Inocência Eterna, Nosso Senhor Jesus Cristo, e da Inocente por excelência, Maria Santíssima.

Mons João Clá Dias

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Nós e a cultura do ressentimento

 DIÁLOGO É A PALAVRA DE ORDEM - Feedback Manager Blog

 Os cristãos sempre foram vítimas do poder, da arrogância e da mentir

Não há quem, na vida, nunca tenha se sentido injustiçado. Todos sofremos com pequenas ou grandes injustiças. Se olharmos para os que estão pior, vítimas inocentes de situações que não criaram para si, como os escravos negros do passado, os cristãos ainda hoje perseguidos até a morte em muitos países só por professarem a sua fé, as etnias vítimas de genocídio ou mesmo as crianças mais pobres em nossa sociedade, nos consideraremos afortunados por nossos padecimentos não serem como os deles. Mas, se olharmos para o mundo ideal pelo qual aspiramos, pela dignidade que sabemos ser inerente a todo ser humano, também as injustiças que sofremos ou presenciamos diretamente, sejam grandes ou pequenas, se tornam inadmissíveis.

Frequentemente essa situação gera, em nós, sentimentos de frustração e ira, explorados pelos formadores de opinião, gerando o que poderíamos chamar de uma “cultura do ressentimento”, um modo de julgar o mundo que não nasce do amor cristão que gostaríamos de viver, mas de um lamento raivoso que nos afasta de Cristo. É impressionante como essa mentalidade afeta até mesmo cristãos que são referência por sua erudição ou sabedoria.

A raiva nos afasta de Cristo e da verdade

A cultura do ressentimento oferece a raiva e o conflito, não o amor e a reconciliação. Basta ver as espirais de discursos cada vez mais agressivos e extremistas que inundam nossas redes sociais. A própria verdade, que se desejava defender no início, acaba sendo sacrificada por uma ideologia de pós-verdade: se os outros mentem, nós também podemos “carregar as tintas” para mostrar que estamos certos. Assim, acabamos nos tornando tão mentirosos quanto os outros.

Superar o ressentimento com propostas construtivas

Procurar culpados têm sua razão de ser, mas não é o melhor caminho para superar as dificuldades. A pergunta justa é “o que está de fato ocorrendo para que este mal aconteça?”. Os discursos ideológicos se valem de problemas reais, já existentes, para se afirmarem. Enfrentar ideologias sem atacar suas origens concretas equivale a “enxugar gelo”. As ideologias e os erros continuam a aparecer, por mais que os combatamos, se não enfrentamos esses problemas reais dos quais se alimentam.

Os cristãos sempre foram vítimas do poder, da arrogância e da mentira. Mesmo no mais cristão dos mundos, os santos sofreram nas mãos dos maus cristãos. Não podemos, por causa disso, nos igualarmos aos que desejam nos cancelar e até perseguir. Nessa luta, pois não deixa de ser uma batalha cultural, teremos perdido não só o confronto, mas também nossa própria alma, se passarmos a nos comportar a partir do ressentimento e não do amor cristão. 

Na mais antiga obra apologética cristã, a Carta a Diogneto, escrita ainda no tempo em que os cristãos eram martirizados e mortos nas arenas romanas, está escrito: “Assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo […] A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam […] Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar”. Os cristãos não nasceram para o gueto do ressentimento, mas para o espaço sem fronteiras do amor.

Francisco Borba Ribeiro Neto 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Texto inédito de Bento XVI aborda matrimônio homossexual, contracepção, eutanásia

 

 Prefaciado pelo Papa Francisco o livro “La Vera Europa, identità e missione” de autoria de Bento XVI traz texto que aborda temas da atualidade.

Vaticano  (sexta-feira 17/09/2021 07:30, Gaudium Press) Foi lançado ontem, 16, pela Edições Cantagalli o terceiro volume de um projeto editorial que reúne textos de Bento XVI, enquanto Cardeal e Pontífice.

Com o título “A Verdadeira Europa, identidade e missão” (La Vera Europa, identità e missione, do original italiano) o livro traz um texto introdutório inédito de Bento XVI que aborda temas que estão em voga na política europeia e no mundo em geral.

Entre os assuntos estão: as uniões homossexuais, pílula contraceptiva, a fertilização artificial e a eutanásia.

Homossexualidade, contracepção, aborto e eutanásia

O Papa emérito afirma que o matrimônio homossexual é uma contradição com as culturas da humanidades, que nunca questionaram o fato de que o homem e a mulher estavam ordenados para a procriação.

Segundo ele, essa ideia foi perturbada com a chegada da pílula contraceptiva que tornou possível a separação entre fecundidade e sexualidade. A partir de então todas as formas de sexualidade tornaram-se equivalentes.

Bento XVI usa o mesmo raciocínio para concluir o inverso “a fecundidade pode naturalmente ser pensada sem a sexualidade”.  Assim o homem não é mais um “dom”, mas um “produto planejado”.

Ora, “o que pode ser fabricado pode igualmente ser destruído” previne o Papa emérito que se preocupa com a tendência crescente à eutanásia.

Prefácio do Papa Francisco

O Papa Francisco que prefacia o livro afirma “estar contente” por apresentar a obra e lamenta junto com seu predecessor que na Europa se perde cada vez mais o respeito pela vida humana.

Francisco elogia Bento XVI que nunca temeu “denunciar com muita coragem e clarividência as numerosas manifestações da renúncia dramática face à ideia de Criação, até as consequências atuais mais recentes”. (FM)