quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Pais digitais com filhos superconectados




O desafio é a qualidade das relações

O que significa ser um pai na era digital? A resposta requer muito mais do que uma mera reflexão superficial, porque entre os chamados "nativos digitais" encontra-se a geração dos "milennials", ou seja, aqueles que nasceram entre 1980 e 2000, muitos dos quais estão começando a ter ou têm os seus primeiros filhos.

E, precisamente, os "milennials" são aqueles que estão na capa da revista Time de outubro de 2015 com um artigo cujo título é pouco inspirador: “Socorro, os meus pais são milennials".

O artigo começa mostrando os novos hábitos alimentares dessa nova geração de pais (veganos ou vegetarianos) e descrevendo sua característica principal: são pessoas que cresceram com smartphones e conectados nas redes sociais: sua vida é documentada com fotos no Instagram, pensamentos em blogs e comentários no Facebook.

Essa mentalidade 'digital' na qual a autoridade é determinada pela popularidade mensurável em "curtidas" ou número de "seguidores" passa depois, também, para o ambiente familiar: os filhos podem ir aonde quiserem porque o lar é uma mini democracia ou, o que é o mesmo, uma “autoridade consensual". A permissividade é quase, quase, uma lei de relações intrafamiliares.

Uma pesquisa feita pela Survey Monkey revelava que pelo menos 46% dos pais milennials postou fotos de seus filhos, até mesmo quando estes só se encontravam no útero materno ou antes de que o seu filho fizesse um ano. De acordo com a mesma pesquisa, alguns pais gostam de ver outros pais milennials cuidando dos seus filhos. “A maioria dos pais joga, consciente ou inconscientemente, com o custo-benefício de estar nas redes sociais", diz Sarita Schoenebeck, professora da Universidade de Michigan, que realizou um estudo sobre o uso do Facebook por parte de mães milennials. Entre as suas conclusões está o fato de que para a maioria das pessoas os benefícios de estar na mídia supera qualquer crítica no campo da educação dos filhos.

Para muitos pais milennials o modo de superar problemas sobre a sua tarefa como pais é precisamente as redes sociais: os seus amigos são os “especialistas” e as mães que não sabem o que fazer com os seus bebês se refugiam nos conselhos obtidos por meio dos grupos de Facebook ou WhatsApp. De acordo com TIME, isso acontece até com o 58% dos pais milennials. É evidente que não fazem o que o seus pais fizeram com eles: perguntar para verdadeiros especialistas.

Mas não é só nesse campo onde se nota a quebra da geração de pais milennials com as gerações anteriores: na maioria dos casos os milennials já não enviam os seus filhos para aulas de tênis, piano ou arte. A empresa Future Cast publicou em 2013 um informe sobre hábitos e atitudes de milennials: 61% deles disseram que os filhos precisam jogar de uma forma não estruturada. Isso, na prática, se reflete em algo tão simples como que as decisões sobre o que fazem ou não os filhos já não vêm dos pais, mas das pesquisas que os pais fazem aos seus filhos. TIME sugere que por trás disso é possível ter um forte individualismo e a ideia de competitividade como um dos valores mais altos sob o slogan "seja você mesmo".

É verdade que também os pais milennials reconhecem que é preciso fazer malabarismos para ter a atenção das crianças hoje. Mas pelo menos eles têm a intenção de testar, pois os milennials são de mente aberta e pessoas que procuram a empatia; tendem a ser excessivamente otimistas, acreditam no progresso e, acima de tudo, confiam no Google. De fato, junto com as redes sociais o seu principal conselheiro é o famoso motor de busca.
É, pois, evidente que as famílias digitais são famílias conectadas e comunicadas mas, a qualidade das relações e a facilidade das conexões não estão mudando o modo como as relações familiares são vividas e experimentadas? A resposta a esta pergunta, de não pouco valor, poderá vista com mais nitidez nos próximos anos. 

Jorge Enrique Mujica


domingo, 1 de novembro de 2015

Após o Sínodo a questão dos recasados está em aberto

 Após o término do Sínodo da Família, Dom Sergio da Rocha, presidente da Conferência Episcopal do Brasil, foi arguido por Zenit se, depois do Sínodo, mudou alguma coisa sobre a disciplina dos sacramentos para as pessoas ou famílias feridas, ou se é necessário, ainda, esperar uma palavra definitiva do Papa. Seguem abaixo alguns alguns trechos desta conversa.

“O texto, na verdade - ressaltou o presidente da CNBB - é um texto que em parte, deixa em aberto a questão". Na verdade, "não há um pronunciamento sobre essa questão". Ou seja, no texto aprovado "não aparece a questão do acesso aos sacramentos por parte de pessoas nessas condições".

Porém, Dom Sergio esclareceu que no final do texto há um pedido claro que os padres sinodais fizeram ao papa. "Nós pedimos ao papa uma palavra definitiva, isto é, um documento que fosse sobre a família", recordando também que na terceira parte do relatório final do sínodo se "retoma a Familiaris Consortio, 84, que é justamente a respeito das diferentes situações que precisam ser discernidas".

Acolhida
Portanto, segundo Dom Sergio, "a ênfase é na acolhida, isto é, na participação dessas pessoas na vida da Igreja para que elas não se sintam excluídas" 
"E não se esqueçam -disse também o arcebispo de Brasília - que o Papa já tinha, anteriormente, publicado aquele documento chamado Motu Proprio sobre os processos de nulidade matrimonial", o qual não "é para facilitar, como alguns entendem, mas para favorecer aquilo que é justo. Isto é, muitos casais que, de fato, estão numa situação de segunda união, mas que o seu primeiro casamento foi nulo, quer dizer, não houve, na verdade, propriamente o casamento". Esse tema, portanto, de acordo com o prelado, "recebeu de novo uma ênfase significativa. Ou seja, nós precisamos de atenção pastoral, acompanhamento dessas situações".

Contudo, não se altera a disciplina atual da Igreja
Dom Sergio reiterou que "pedimos ao Santo Padre para que, depois, haja uma palavra definitiva" e que o tema "apareceu mais nas discussões", disse, recebendo "na mídia uma importância muito grande, que de fato tem, mas não é objeto explícito do texto". De tal forma que - acrescenta o presidente da CNBB - "o nosso entendimento é esse" que "o texto insiste na questão da acolhida, na questão da orientação, da ajuda a estes casais, que favoreça, naquilo que for possível, sua atuação, sua participação, e o pedido ao santo padre de uma palavra mais definitiva sobre isso, a partir dessas reflexões que o sínodo traz".

O texto deixa a cada bispo o discernimento
"Nesse momento, é claro, - diz o prelado - nós não temos aqui um pronunciamento diverso, da conferência episcopal, até porque não cabe à conferência episcopal esse pronunciamento, o texto não deixa, mas, sim, deixa a cada bispo o como orientar esses casais na vida de comunidade". De tal forma que "o padre, junto com o bispo, ao atender, possa ver qual é o grau possível de participação" no concreto. 

É importante lembrar que não é um texto legislativo
Por último, o arcebispo chamou a atenção para um ponto: esse texto não tem caráter legislativo. "Na verdade, cuidado". Este Sínodo não "tem um caráter como tem outros documentos do magistério. São sugestões, são propostas, ou melhor, reflexões e propostas que os padres sinodais apresentam ao santo padre", destacou. "Então, por causa disso e da expectativa, às vezes, se dá a esse texto também um peso maior do que ele realmente tem. Ele deve ser respeitado, valorizado, acolhido... o próprio Papa autorizou a publicação dele. Agora, os pontos em aberto, estão em aberto para a reflexão continuar e também para que as medidas pastorais mais adequadas sejam tomadas", disse.

Por Zenit

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O veneno de julgar...


"Aqui não se fofoca!". Esse aviso deveria ser colocado em muitos ambientes de convivência, segundo sugeriu na sexta-feira o padre Raniero Cantalamessa OFM cap, na meditação de Quaresma que dirigiu a Bento XVI e seus colaboradores da Cúria Romana em abril de 2011.

Ao discutir a frase da Carta de São Paulo aos Romanos, que "a caridade não seja fingida", o frade capuchinho considerou que no campo da caridade na Igreja há um aspecto que precisa de conversão: o ato de ficar julgando uns aos outros.

O fato de julgar não é em si algo mau, esclareceu, o que é verdadeiramente mau é "o veneno do nosso julgar": "o rancor, a condenação".

Perante o Papa, cardeais, bispos, sacerdotes e religiosos presentes na capela Redemptoris Mater do Palácio Apostólico, Cantalamessa explicou que, "em si, julgar é uma ação neutra"; "o juízo pode terminar tanto em condenação quanto em absolvição e justificação".

"São os juízos negativos os que a palavra de Deus reprime e elimina, aqueles que condenam o pecador junto com o pecado, aqueles que olham mais para a punição do que para a correção do irmão", disse.

"Para estimar o irmão, é preciso não estimar demais a si mesmo - prosseguiu -; é necessário ‘não ter uma visão alta demais de si próprio'". "Quem tem uma ideia muito alta de si mesmo é como um homem que, à noite, tem diante dos olhos uma fonte de luz intensa: não consegue ver nada além dela; não consegue ver a luz dos irmãos, seus dotes e seus valores."

"‘Minimizar' deve se tornar o nosso verbo preferido nas relações com os outros: minimizar os nossos destaques e minimizar os defeitos alheios. Não minimizar os nossos defeitos e os destaques alheios, como somos tantas vezes levados a fazer; é diametralmente o oposto!"

A fofoca mudou de nome, chama-se ‘gossip', afirmou Cantalamessa. "Parece ter virado coisa inocente, mas é uma das que mais poluem a vida em grupo".

"Não basta não falar mal dos outros; precisamos também impedir que os outros o façam em nossa presença; fazê-los notar, mesmo que silenciosamente, que não estamos de acordo."

"Em muitos locais públicos está escrito ‘Aqui não se fuma'. Antigamente havia até alguns avisos de ‘Aqui não se blasfema'. Não faria mal acrescentar, em alguns casos, ‘Aqui não se fofoca'".

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O retrato da família hoje


De 4 a 25 de outubro de 2015, acontece no Vaticano a  XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. Esse encontro será a etapa final do sínodo da família.O relator geral do sínodo, cardeal Peter Erdö, apresentou a “Relatio Post Disceptationem”, documento que finaliza a primeira etapa. O documento recolhe as principais reflexões dos padres sinodais nos primeiros dias do encontro.

A família vive uma crise profunda. Sua identidade como célula onde se forma o indivíduo está deteriorada. A falta de solidez das relações conjugais, a novas configurações profissionais de homens e mulheres, que exigem mais dedicação e tempo fora de casa, a rapidez das transformações tecnológicas, a influência desconstrutiva das mídias nas relações familiares, e outras tantas variáveis, afetam diretamente esta instituição milenar.

Segundo Pe. Duarte da Cunha: "Claro que esta crise também tem levado a valorizar muita coisa que não era suficientemente tida em conta, como a importância da ternura nas relações conjugais, a complementaridade homem/mulher na educação; a função social da família, para só citar alguns aspectos. Assim, não é necessário entender a palavra crise exclusivamente em sentido negativo, mas chamamos verdadeira crise porque muita coisa mudou e ainda não se sabe onde vai parar e porque muito do que sempre foi tido como imutável está sendo atacado. O problema, no entanto, não é tanto que  aconteça uma mudança das ideias sobre a sociedade. Em si mudar as ideias  não é mau, mas o que esta acontecendo é a destruição da civilização humana e, por isso, o desaparecimento da pessoa, porque se negam aspectos constitutivos da sua natureza. A crise da família está intimamente ligada, quer como causa, quer como efeito, à crise geral da sociedade, mas o que está em causa é a pessoa.

A pessoa humana, ser único e irrepetível, unidade complexa de alma e corpo, ser eminentemente social, vive, ainda, numa história e, por isso, experimenta-se a si mesmo no tempo e no espaço concretos. Todas as relações que temos com outras pessoas e até conosco mesmos são sempre, de forma absolutamente necessária, afetadas pela marca do tempo e da pátria. Mas a pessoa, mesmo contextualizada e vivendo num tempo que não pára, permanece a mesma. A pessoa humana procura sempre a unidade, não só entre alma e corpo, entre eu e tu, mas também entre permanência e mudança. Há coisas que nenhum tempo ou lugar podem mudar, sob o risco da pessoa humana deixar de ser o que é, e todos desejamos viver um dinamismo que seja não uma constante e desorientada mudança mas um crescimento do mesmo eu. 

Ao longo da história, houve várias tentativas de imaginar a sociedade sem família, desde a República de Platão que isso tem tido alguns interessados, mas nunca foi possível um punhado de intelectuais desorientados afetar o rumo das pessoas reais, até chegarmos a este tempo em que o poder midiático, o poder econômico e os intelectuais relativistas se unem para tentar fazer uma coisa nova e destruir o que era estrutural. Será exagero dizer isto? Mas, se achamos que deve ser liberalizado os pais matarem os filhos recém gerados (aborto), se as relações deixam de pretender ser estáveis e capazes de progredir através dos momentos bons e dos momentos maus, para serem apenas experiências fugazes (divórcio fácil uniões passageiras) e se a relação de casamento entre pessoas deixa de ser a descoberta do eu total, corpo e alma, e, consequentemente da diferença e da complementaridade sexual, para passar a ser apenas a união de dois seres que sentem uma qualquer afeição (homossexualidade), então o futuro será uma incógnita.
Se os que acreditam que o Criador tem um projeto e experimentam no seguimento desse caminho revelado a verdadeira felicidade se juntarem e defenderem a família, a vida e as instituições que as protegem, então o futuro não será negro, mas uma nova esperança".

Acompanhe na seção Entrevistas, um casal de colombianos que participam do Sínodo das Famílias como auditores, e veja o que dizem sobre dedicar mais tempo à família para salvá-la. 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Jesus não é um "fast food espiritual"



Evangelizar é preciso porque este foi o mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: “Ide por todo mundo pregai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15). São João Paulo II fez ecoar essas palavras de Jesus, quando disse que muitos são batizados, mas pouquíssimos são evangelizados. Evangelizar é preciso em sintonia com a Igreja do Brasil e seu Projeto: “Queremos ver Jesus, caminho, verdade e vida”.

Nunca o nome de Jesus foi tão falado e propagado, mas, infelizmente, como um “fast food espiritual” que resolve o problema de todos principalmente daqueles que arrecadam no uso de Seu nome. A única forma de lutar contra todas essas leviandades de uma fé banalizada é levar as pessoas a uma experiência profunda com Jesus, resgatando-as para Ele.

A própria Igreja no Brasil, nos lança os desafios quando pede uma evangelização que atinja a pessoa, a comunidade e a sociedade. Desafio que se torna maior ainda quando nos questionamos se evangelizar, segundo as palavras de Jesus, “Eu vos farei pescadores de homens”, significa pescar num aquário ou reduzir nossa evangelização a sermões dados e bem preparados àqueles que frequentam a Igreja.  A Igreja nos desafia a evangelizar e a trazer de volta o católico “de ocasião”, aquele que só vem para batizados, missa de sétimo dia ou quando o desgosto da vida faz com que a pessoa busque a Igreja como um “supermercado de graças”.

O desafio da evangelização se faz maior quando somos chamados a “lançar redes em águas mais profundas”, para resgatar os jovens que, cada vez mais, estão distantes da Igreja e dos quais exigimos, quando nela estão, que se comportem como adultos e pessoas da terceira idade.

Faz-se necessário lembrar que os protagonistas da evangelização deste milênio não são, necessariamente, os sacerdotes, mas os leigos chamados a evangelizar pelo testemunho da vida, pelas obras e pela fé.

Deus não é um “supermercado de graças” e não precisamos querer arrancar algo D’Ele.

Se evangelizar é uma urgência e se somos evangelizadores, então como evangelizar? Para nós que somos evangelizadores, evangelizar é acolher cada pessoa que chega e que se sente deslocada. Evangelizar é acolher aqueles que tropeçam no decorrer de sua vida e se desviaram da graça. Evangelizar é estender o braço para aquele que está caído. Evangelizar é oferecer uma nova chance para aquele que quer se redimir. Evangelizar é acolher e trazer de volta a ovelha machucada e desgarrada que já sofreu muito no mundo e levou pancada demais, de outros e falsos pastores. Evangelizar é falar o que Jesus disse, fazer o que Jesus fez. Evangelizar é encurtar distâncias, é ser ponte onde há inimizades, é saber criar situações onde o bem comum fale mais alto e a justiça de Deus aconteça.

A humanidade está faminta de Deus e não é justo que deixemos que eles vivam de migalhas. Não podemos nos esquecer dos ensinamentos da multiplicação dos pães. A humanidade está sedenta de água viva e se envenena com a água contaminada do medo, da violência e da insegurança. Não é justo guardarmos as talhas para nós e deixarmos que a água pura e cristalina jorre somente entre os átrios de nossas Igrejas.

Creio numa evangelização feita com arte, como uma grande sinfonia, onde no todo há harmonia e cada instrumento é importante e singular.

Evangelizar é preciso porque é na Palavra de Cristo que encontraremos as ferramentas necessárias para despertar consciências adormecidas e relaxadas, que semeiam valores contrários à família, à fidelidade ao respeito e ao amor.

Pe. Reginaldo Manzotti é coordenador da Associação Evangelizar é Preciso, e pároco e reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe em Curitiba (PR).