terça-feira, 23 de agosto de 2016

As pequenas concessões


Somos rápidos em conceder a nossos erros desculpas, geralmente àqueles mesmos erros que, nos outros, são vistos como grandes pecados.

Desta forma vai-se fazendo pequenas concessões aos próprios erros e pecados. Concessões que começam assim tornam um coração incapaz de discernir e, em breve, passamos a aceitar pequenas concessões à carne, ao mundo e… ao diabo.

Se hoje encontro uma “desculpa” para o atraso em chegar à S. Missa… depois encontrarei outra desculpa pra deixar de ir à S. Missa (estou cansado…), para vestir-me de modo inapropriado (faz calor… todos usam…), por último perco completamente o sentido que estou na casa de Deus e já atendo o celular, negocio preços, converso…distraio-me e distraio as outros. Se amanhã encontro desculpa para relaxar na vida de oração… logo mais terei descido ao nível do animal irracional que já não reza e não dá o devido louvor a Deus. Se logo mais concedo em rapidamente perdoar as minhas faltas, serei tardo em perdoar as faltas alheias… ou entrarei no espiral de achar tudo como bom, honesto e santo chamando o pecado de virtude, a desgraça de suma glória. Certamente logo mais encontrarei desculpas frescas e bem cheirosas para aplicar sobre a podridão do pecado a qual disfarçarei de “pecadinhos”. E então, entra-se num torvelinho de desculpar-se a si mesmo e ver tudo com naturalidade. Tudo é natural para o homem carnal.

É uma doença apenas dos leigos? Não! Infelizmente a naturalidade de viver em pecado já é uma constante até mesmo entre os consagrados… hoje se desculpam que não tiveram tempo de rezar, amanhã, quem sabe, um pecado grave se torna algo “natural”, depois de amanhã só lhes resta chafurdar na lama. O que hoje é “apenas um pecadinho”, amanhã é monstro devorador e possuidor do tempo e da vida… que não nos pertencem. Passa-se a viver uma “vidinha” em detrimento da verdadeira vida!

Já um poeta naturalista como Juvenal cantava a beleza do pecado sem deixar de notar os espinhos: “Monstravit brevis hora rosam mihi: vix brevis hora praeteriit, sola est spina reperta mihi.” (Mostrou-me por um breve momento uma rosa, o breve momento logo passou, só me ficou o espinho). Para aqueles que não vêm mais que naturalidade no pecado saibam que da rosa encantadora, que causa deleite à vista, ao tato e ao paladar, resta-lhe apenas o espinho que é o que fica como memória na carne e no espírito.
Quem pode dizer que está com o espírito pronto? Quem pode dizer que é impecável? Quem pode dizer que se basta a si mesmo? Da Palavra de Deus brotam três conselhos de ouro para a nossa salvação:
  1. “Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mateus 26,41).
  2. “Portanto, quem pensa estar de pé veja que não caia.” (1Cor 10,12).
  3. “Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar.” (1Pd 5, 6-8).
S. Cipriano de Cartago comentando este trecho da Carta de S. Pedro afirma que o diabo é sim, um leão ou cão acorrentado, mas que só pode morder quem lhe chega perto.
Vigiemos e Oremos. 

Pe. Cléber Eduardo - Diretor Espiritual do Apostolado Esto Vir e Pároco da Paróquia Sagrada Família em Bagé - RS, também acompanha na "Casa de S. José" em uma espécie de Propedêutico na mesma paróquia a um grupo de jovens em discernimento à vida sacerdotal diocesana ou à vida monástica. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

No amor não há medo!


Na Bíblia Deus diz muitas vezes "não temas". Deus protege aqueles que o amam. Ele nunca os abandona. Por isso, devemos não só acreditar nisto, mas vivê-lo de fato.

O medo nos impede de cumprir a vontade de Deus, paralisa nossa ação e bloqueia a esperança. Por medo, muitas vezes, não evangelizamos e não seguimos o caminho que nos recomenda a Igreja, por não queremos compromisso. Acontece que o único compromisso que perdura para além da nossa finitude é aquele feito com o Criador.

Precisamos pedir a Deus, através da Bíblia, coragem para nos desvencilharmos de tudo o que nos impede de nos decidirmos por Ele! 

Não fazendo caso do que eles disseram, Jesus disse ao dirigente da sinagoga: "Não tenha medo; tão somente creia".  Marcos 5,36

Por isso não tema, pois estou com você;
não tenha medo, pois sou o seu Deus.
Eu o fortalecerei e o ajudarei;
eu o segurarei
com a minha mão direita vitoriosa. Isaías 41,10

 
Sejam fortes e corajosos. Não tenham medo nem fiquem apavorados por causa delas, pois o Senhor, o seu Deus, vai com vocês; nunca os deixará, nunca os abandonará". Deuteronômio 31,6

Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno. Mateus 10,28

Pois eu sou o Senhor, o seu Deus,
que o segura pela mão direita
e diz a você: Não tema; eu o ajudarei. Não tenha medo, ó verme Jacó,
ó pequeno Israel,
pois eu mesmo o ajudarei",
declara o Senhor,
seu Redentor, o Santo de Israel. Isaías 41: 13-14

Não fui eu que ordenei a você? Seja forte e corajoso! Não se apavore nem desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar".  Josué 1,9

Não tenha medo, ó terra;
regozije-se e alegre-se.
O Senhor tem feito coisas grandiosas! Joel 2,21

Certa noite o Senhor falou a Paulo em visão: "Não tenha medo, continue falando e não fique calado, pois estou com você, e ninguém vai lhe fazer mal ou feri-lo, porque tenho muita gente nesta cidade".  Atos dos Apóstolos 18: 9-10

ISF

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Profecia feita poesia


A palavra profeta significa aquele que anuncia, que proclama a mensagem de outrem. Não no sentido de predizer o futuro, e sim como um artesão, ministro e artista da palavra a serviço do mandato divino. O profeta por vocação é o homem da palavra.

Na Bíblia o profeta é o arauto, um porta voz a quem Deus confia uma mensagem, lhe autoriza a comunicação e garante a sua veracidade. No entanto não se trata de um mero repetidor. Os profetas precisavam se empenhar para elaborar os oráculos com o suor da fronte, assim como faz todo artesão quando lapida a madeira para elaborar a obra de arte. Aos profetas é imprescindível o domínio da língua, daí a mensagem profética ser permeada de poesia.

O profeta não fala por si mesmo; se o fizer, é falso. Ele entrega todo o seu ser a serviço do alto, mas com os pés no chão da vida. Os olhos voltados para Deus e também para o mundo. O mundo com tudo o que há de mais contraditório e de mais belo.

Mesmo diante de situações que pareciam não ter saída, o profeta vê sinal de esperança. Seus olhos têm a luminosidade do alto. É um olhar de ternura, de misericórdia e de acolhida. Toda ação profética é banhada de contemplação, o que significa dizer que é um agir com discernimento. Uma ação iluminada pela oração. 

O profeta tem consciência de sua condição física: em seu corpo há dois ouvidos e uma boca. Por isso, antes da palavra, ele considera o silêncio. Seu ouvido afinado ouve o que Deus fala. Seus pés, sempre prontos a partir, ainda quando cansados, têm pressa em semear a Palavra consoladora. 

Ao profeta importa que a vida seja mais. E sua palavra é um alerta para que ninguém se perca; ao contrário, encontre-se e viva feliz. O profeta denuncia o que não é de Deus. Seus lábios pronunciam a doçura divina e acusam corajosamente tudo o que diminui a vida; "Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal!" (Mq 2,1).

Trechos do Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, sacerdote paulino, para a revista Vida Pastoral set/out- 2016.

Que todos nós tomemos este trechos como uma exortação à nossa vocação profética assumida em nosso Batismo e Crisma. O mundo precisa da profecia feita poesia por nossos lábios.

ISF

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Não confundam felicidade com sofá!


Ontem foi concluída a XXXI JMJ, na Cracóvia, Polônia. Mais de um milhão de jovens de todo o mundo estiveram presentes nestes dias de intensas experiências espirituais, de fraternidade, de acolhida, de senso de pertença a algo muito maior que o próprio evento: a pertença a Deus que abraça cada um e cada uma, como únicos e irrepetíveis.

No Ano da Misericórdia, esta Jornada Mundial da Juventude vem, sob as pregações do Papa Francisco, convidar os jovens para que sejam arautos da misericórdia, nestes dias repletos de  violência, de impiedade, de falta de sentido na vida, e de descaso para com os pobres e esquecidos pela sociedade.

 
Ele frisa aos participantes que é necessário "desintalar-se", sair do conforto e da rotina que não permitem que se perceba o outro fragilizado que está em casa, na rua, nas periferias da existência, e que espera, através de um gesto de misericórdia, sentir o calor daqueles que se fazem "ponte" de encontro entre irmãos.


O Papa estimula os jovens a não terem vergonha de serem humanos e solidários, e que não se deixem conduzir pelo espírito consumista e utilitarista de nosso tempo. Ele afirma que não há maior felicidade do que seguir a Jesus, e que não se deve temer os que riem dos que tem fé e querem se espelhar no agir de Cristo. Francisco afirma: “Com este olhar de Jesus, vocês podem criar uma nova humanidade, sem esperar recompensa, mas buscando o bem, felizes de ter um coração puro e lutando, de modo pacífico, pela honestidade e a justiça. Não sejam superficiais, desconfiem das aparências mundanas. Mas, tenham um coração que vê e transmite o bem, sem cessar. Contagiem o mundo com a alegria que receberam gratuitamente de Deus".


  
Enfim, o Papa diz aos jovens que a JMJ começa agora para eles. Ao voltar às suas casas e ocupações, é hora de acreditar que não foi um sonho, não foi só mais uma JMJ, mas um encontro com a missão que devem abraçar, com a verdade que devem crer, e com a pessoa de quem devem esperar tudo: Jesus, que chama a cada um pelo nome. "Tudo, porém, recomendou o Papa, deve realizar-se na oração, na Palavra de Deus, no Evangelho! Respondamos a Jesus que nos chama pelo nome. Façamos memória, agradecidos, do que vimos e ouvimos aqui", afirmou o Papa Francisco.

ISF

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Infidelidade espiritual



Estudos recentes da “American Association for Marriage and Family Therapy” (EUA) revelam que cerca de 20% dos casamentos têm algum tipo de infidelidade sexual. Outra parcela de 20% é vítima de algum vínculo emocional com outra pessoa que não seja seu cônjuge. 

No caso específico do Brasil, segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o casamento continua em alta em nosso país, porém, o número de divórcios também continua aumentando em grandes proporções.

Mas, em círculos especificamente católicos, qual seria o panorama?

Em uma edição da revista norte-americana Our Sunday Visitor, o Dr. Gregory K. Popcak, especialista em aconselhamento pastoral, notadamente nas áreas de transtornos afetivos (depressão, ansiedade) e problemas matrimoniais e familiares, afirma que até 83% dos casamentos católicos, os cônjuges cometem a denominada “infidelidade espiritual” (cf. “Spiritual infidelity: A crisis in Catholic marriage”, 02.09. 2015).

Entende-se por “infidelidade espiritual” um conceito muito mais amplo que o de “infidelidade sexual” ou “infidelidade sentimental”. Considerando as mútuas promessas que ambos os cônjuges firmaram no dia do casamento, e uma vez que este sacramento supõe para os cônjuges que se tornem ajuda um para o outro para chegar ao céu (o que implica viver a fé juntos: orar unidos, ir juntos à missa, educar de forma cristã os seus filhos, etc), a violação dessas promessas de caráter espiritual torna-se uma “traição” que, em última instância, enfraquece o casamento e facilita outras infidelidades. Essa é a “infidelidade espiritual” definida por Popcak.

Mas, qual é a base para se chegar a essa elevada porcentagem de “infidelidade espiritual?
Um estudo realizado pelo “Center for Applied Research in the Apostolate” da Universidade de Georgetown e patrocinado pela “The Holy Croos Family Ministries” mostra que apenas 17% dos casais católicos rezam juntos.

Isso significa que, de acordo com o Dr. Popcak, “em termos práticos, se um casal católico não está partilhando ativamente a sua fé, adorando a Deus juntos, orando juntos, cai-se na infidelidade espiritual ao colocar algo diferente de Deus e da fé no centro das suas vidas”. E acrescenta: “parece-me que, infelizmente, os católicos aceitam a existência da infidelidade espiritual”.

Para Popcak é algo muito sério que a maioria dos esposos católicos não assuma que deve esperar algo do seu cônjuge relativo aos compromissos espirituais mutuamente adquiridos como orar juntos ou compartilhar a fé.

Muitas vezes ouve muitas vezes esposas e esposos que dizem: “Não posso obrigar meu cônjuge a orar”. E refere que certamente não se trata de forçar ninguém a fazer nada; trata-se de convidar permanentemente ao casal a ser fieis às promessas realizadas no altar com a expectativa de que, pelo menos, por respeito ao seu esposo(a), compartilhem um momento de oração significativo. Não fazê-lo seria consentir abertamente a “infidelidade espiritual”.

Com efeito, no capítulo VI da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, que sintetiza os principais desafios pastorais derivados dos debates do caminho sinodal, dentre eles o acompanhamento dos casais nos primeiros anos de sua vida matrimonial, Papa Francisco salienta que “É preciso sublinhar a importância da espiritualidade familiar, da oração e da participação na Eucaristia dominical e animar os cônjuges a reunirem-se regularmente para promoverem o crescimento da vida espiritual e a solidariedade nas exigências concretas da vida. Liturgias, práticas devocionais e Eucaristias celebradas para as famílias, sobretudo no aniversário de matrimônio, foram citadas como vitais para favorecer a evangelização através da família.”

Prossegue alertando o Santo Padre que “quando não se sabe que fazer com o tempo compartilhado, um ou outro dos cônjuges acabará por se refugiar na tecnologia, inventará outros compromissos, buscará outros braços, ou escapará de uma intimidade incômoda.

Eduardo Mélega Burin

Referências:
1. “Artigo publicado por Jorge Henrique Mujica em ZENIT - 10/09/16
2. Exortação Apostólica Pós-Sinodal – Amoris Laetitia – Papa Francisco