sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Maior obra de misericórdia da Família Paulina: dar Jesus Mestre e Pastor na ótica da comunicação


A abundância de reflexões sobre a misericórdia é oferecida, nestes tempos, em todas as partes do mundo. De caráter universal as reflexões vêm acompanhadas de gestos expressivos e significativos desde os pequenos aos adultos, dos pobres aos ricos. Todos são convidados para o banquete da reconciliação, a "festa da misericórdia".

Dentre várias abordagens está aquela de perceber qual a verdadeira necessidade das pessoas, e que, tantas vezes, elas não sabem manifestar. É a sede de algo a mais, é a fome de um pão que não perece, é a libertação de cadeias intrincadas e manipuladoras, é a proximidade que expele a solidão, é a veste da pureza e da verdade substituindo o falso e as meias verdades.

Um pequeno grande santo, o Beato Tiago Alberione, percebeu a profundidade e a exigência da misericórdia por excelência - dar ao mundo Jesus Mestre e Pastor. Este sim é aquele que ama, que cura, que é o Caminho, a Verdade e a Vida, de quem as pessoas tanto precisam e muitas vezes não sabem buscar. E Alberione como homem do Espírito, seguiu sua inspiração e deixou a mesma percepção e vocação para os continuadores de sua missão - a Família Paulina.

A essa grande Família ele confiou a missão de perguntar: "Para onde vai essa humanidade?" Alberione compreendeu que é no mundo da comunicação que as pessoas se alimentam, se vestem, se plasmam na verdade ou na mentira, constroem muros ou os derrubam, criam ou distorcem suas consciências, enfim, nutrem e formam suas mentes, suas vontades e seus corações. 

Pediu então aos seguidores de jesus, no carisma paulino, que praticassem a "misericórdia por excelência", dar Jesus.

É preciso lutar para criar uma consciência ética que forma, alimenta e constrói uma sociedade que viva a vocação primeira: ser gente. A começar com o mundo da comunicação.

Vale então a pergunta: No mundo da comunicação, somos apenas vítimas? Ou realmente nos assentamos no "banquete da misericórdia", para darmos Jesus Mestre e Pastor de forma atual, criativa e corajosa?

Irmã Joana T. Puntel, fsp 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O governo de si mesmo


A sexualidade é um dom divino, exerce uma função sagrada pela qual o amor humano, no casamento, recebe uma expressão única de união que o associa à criatividade de Deus. A pornografia implica uma degradação essencial desta realidade sagrada, pois tende a despertar o sexo em função do próprio sexo e não do amor e da procriação. E isso é degradar o seu sentido e o seu papel, reduzindo-o ao nível de um instinto animal cujo único objetivo é procurar uma satisfação sensual imediata.

Num plano mais amplo do que estamos considerando agora, não há dúvida de que uma pessoa que não controla os seus apetites ou instintos não pode relacionar-se com os outros de um modo verdadeiramente humano, porque os seus impulsos descontrolados a impedirão de respeitá-los. Usará ou abusará dos outros como objetos, e não os respeitará como pessoas. O capitalista, dominado pela avareza, explorará os seus empregados, ainda que arranje mil razões para justificar a sua conduta. O terrorista, dominado pelo nacionalismo exaltado, pelo ódio cego ou pelo desejo de vingança, sequestrará, torturará ou matará vítimas inocentes. O fabricante de pornografia ou, mais especialmente, o seu cliente - a pessoa dominada ou obcecada pelo sexo - , explorará igualmente os outros, se puder; porque as outras pessoas só lhe interessarão na medida em que possam satisfazer o seu apetite obsessivo. Nos outros não verá pessoas, mas apenas objetos, objetos a serem desejados e usados, dos quais possa abusar e depois desfazer-se. O respeito pelos outros tornar-se-á uma expressão sem sentido para a sua mente confusa, e uma meta inacessível para a sua vontade enfraquecida e para a sua natureza cada vez mais egoísta.

Há a necessidade da autocensura. A indicação moral prática aqui é saber que obras podem deformá-lo ou degradá-lo, e a sinceridade e a força de vontade para evitá-las. A autocensura é simplesmente uma expressão do autocontrole, e o autocontrole é essencial à liberdade social individual. Afinal de contas, se uma pessoa não exerce o autocontrole, com toda a certeza estará sendo controlada por outros. Este controle ou manipulação da maioria pela minoria, especialmente por meio do sexo, cobre campos e interesses muito mais vastos do que se poderia imaginar à primeira vista. 

Mas para não perder a liberdade, ou a alma, é essencial compreender que podemos perdê-las, e saber reconhecer e evitar aquelas coisas que podem privar-nos delas. 

Por que haverá tantas pessoas hoje em dia que não exercem o autocontrole? Será que pensam que o perigo não existe? Será que pensam que não têm nada a perder? Nunca perscrutaram o céu, nem acreditam no veneno que têm ingerido há anos?  Era nelas que o autor inspirado pensava quando escreveu:

"Conheço as tuas obras: tens nome de vivo, mas estás morto [...] Lembra-te de como recebeste e ouviste a doutrina. Observa-a e arrepende-te. Se não vigiares, virei a ti como um ladrão, e não saberás em que momento te surpreenderei" (Apo 3,1-3)

Cormac Burke

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Todas as palavras da Bíblia são portadoras de vida, geram vida e realizam as pessoas.

Deus quer o bem de todos. Fomos feitos à sua imagem e semelhança, com o precioso dom da liberdade, assim como o bem da comunhão. Fomos todos feitos para a felicidade e a plena realização, não para a tristeza ou o pecado! “Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos. Ele criou todas as coisas para existirem, e as criaturas do orbe terrestre são saudáveis: nelas não há nenhum veneno mortal, e não é o mundo dos mortos que reina sobre a terra, pois a justiça é imortal. Mas os ímpios chamam a morte com gestos e palavras: considerando-a amiga, perderam-se e fizeram aliança com ela: de fato, são dignos de pertencer ao seu partido” (Sb 1, 13-16).

O livro da vida, escrito por Deus com mente, coração e mãos de artista, é história do bem que o Senhor quer para todos. E o livro da Escritura, Palavra de Deus que ilumina a existência humana, é caminho de felicidade e realização, pois “a lei do Senhor é perfeita, conforto para a alma; o testemunho do Senhor é verdadeiro, torna sábios os pequenos. As ordens do Senhor são justas, alegram o coração; os mandamentos do Senhor são retos, iluminam os olhos” (Sl 18, 8-9). Todas as palavras da Bíblia são portadoras de vida, geram vida e realizam as pessoas.

Quando Jesus conta as parábolas, palavras de Deus e palavras da vida, revela-se o Deus verdadeiro, que entende de humanidade, e o homem verdadeiro, com apurada sensibilidade para as realidades e sentimentos humanos. Casamento, plantas, sal, luz, dinheiro, terras, administração, herança, peixes, ovelhas e tantas outras realidades humanas entram na lista dos assuntos de Jesus. São luzes acesas para entender a vida e viver a Palavra!

Uma das mais preciosas parábolas é a do semeador (Mt 13, 1-23), inclusive explicada pelo próprio Senhor. A parábola é realista e positivamente provocativa, quando boa semente é lançada em todos os terrenos existentes. Chama atenção o fato de que o Semeador não desanima em seu trabalho, mas continua lançando a semente, e o faz até o fim dos tempos, quando acontecerá a grande colheita. Acredita na qualidade da boa semente, com a certeza de que os frutos virão!

Ora, o que então dificulta o anúncio dos valores do Reino de Deus? Por que tanta gente recusa a Boa Nova? Qual a explicação para o devassador fenômeno do indiferentismo? Como entender o fato de as pessoas preferirem o caminho do egoísmo e da maldade, se foram feitas para o bem e não para o pecado? Ainda que não tenhamos uma explicação completa para tais fatos, é bom saber que Jesus alertou, com a sabedoria que sobeja em suas afirmações, que “a todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração” (Mt 13, 19). Misteriosamente, sim, mas convivemos com a realidade da tentação, e ela tem nome! Só que o outro polo, o da liberdade, é decisivo. Deus é fiel e não permite que sejamos provados acima de nossas forças. Pelo contrário, junto com a provação ele providencia o bom êxito, para que possamos suportá-la (Cf. I Cor 10, 13).

Apenas para avançar um pouco mais na árdua e gratificante tarefa do anúncio do Evangelho, é possível crescer na descoberta do bem existente em todas as pessoas e ambientes. Também para que identificar o que está errado e onde é possível consertar, é sinal de inteligência e de fidelidade às inspirações do Espírito Santo identificar as sementes do Verbo de Deus presentes ao nosso redor e continuar a plantar o bem, pois o remédio é a própria boa semente!

Depois, se o que assusta é a beira do caminho, onde as sementes se dispersam, vale parar um pouco, com atenção àqueles que caíram e se deixaram envolver pela tentação, pois pode ter chegado a hora de Deus para eles. Evangelização corpo a corpo, porta a porta, presença amiga, misericórdia.

Terreno pedregoso, superficialidade, pouca raiz? Isto exige tempo e dedicação, paciência com as idas e vindas, instabilidades e indecisões das pessoas a serem amadas e acompanhadas. É de São Paulo a proposta: “Proclama a Palavra, insiste oportuna ou inoportunamente, convence, repreende, exorta, com toda a paciência e com a preocupação de ensinar” (2 Tm 4, 2).

Preocupações do mundo e ilusão das riquezas? Situações tão comuns que podem levar a descartar os que as têm em abundância, de carteiras ou cofres cheios ou vazios. Insistir, suscitar partilha, enfrentar os espinhos, pois atrás deles podem existir rosas!

Como sempre acontece, a cada tempo florescem também os frutos de cem, sessenta e trinta da boa semente (Cf. Mt 13, 23). Estes realimentam o otimismo incorrigível de quem anuncia o Evangelho, pois a Palavra produz sempre seus efeitos.

Dom Alberto Taveira - Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

terça-feira, 30 de agosto de 2016

No relacionamento, o ressentimento é perigoso


A dificuldade de relacionamento e a possibilidade da mágoa não estão ligadas ao fato de sermos mais ou menos santos. Santidade é fruto de superação. Aliás, muitos santos só chegaram ao estágio de santidade exatamente porque conseguiram superar seus problemas de convivência. Ao lermos a vida dos grandes santos, vemos como souberam amar, perdoar, relegar, passar por cima, voltar… Foram mestres em relacionamento não porque não tiveram problemas, mas porque aprenderam a superá-los e a resolvê-los de modo correto.
 
Problemas existem, dificuldades de relacionamento são relativamente normais. Não podemos, sob nenhuma hipótese, permitir que essas dificuldades se transformem em ressentimentos.

Existem situações que fogem ao nosso controle e acabam por gerar desentendimentos. Mas isso jamais pode ser obstáculo para que vivamos como irmãos e nos amemos cada vez mais. O segredo é não deixar as mágoas se transformarem em ressentimento. A verdade precisa aparecer sempre.

É preciso aprender a expressar nossos sentimentos positivos e também os negativos. Não adianta querer se martirizar guardando tudo no coração. Mas é preciso aprender a fabulosa arte de se expressar, especialmente quando somos provocados por sentimentos de mágoas. Se já é difícil expressar os sentimentos bons, quanto mais expressar corretamente os sentimentos estragados. É preciso saber como falar e, acima de tudo, falar com o objetivo de fazer crescer, de desejar a cura do outro e não a sua destruição.

Ninguém está imune ao ressentimento
Ninguém consegue superá-lo só com alguns bons conselhos. O ser humano vive e se abastece pelo diálogo. Esse é o modo natural de comunicação. Mas parece que nos esquecemos de algo tão óbvio e evidente, e, diante dos problemas de relacionamentos, fechamo-nos num silêncio sepulcral. Sem a coragem de dialogar não existe a menor possibilidade de evitar que os problemas mais comuns do dia a dia acabem por se transformar em ressentimento.

Assim como a oração precisa ser sincera, o diálogo também deve obedecer a essa lei fundamental. Sinceridade significa estar desarmado. Não há como um diálogo ser canal de cura se eu for ao encontro do outro com o coração armado e pronto para criticá-lo, brigar com ele, ofendê-lo e culpá-lo. Isso não é diálogo, é provocação.

No diálogo fraterno e honesto, não pode existir a intenção de ofender o outro ou de devolver a ofensa recebida. Se existe essa intenção, é melhor deixar para outra hora. Tudo o que falamos na hora da exaltação e da raiva só ajuda a aumentar o problema e a aprofundar a ferida.

O diálogo só é curador quando ocorre num clima de amizade fraterna, com o objetivo de solucionar o problema; é curador se ajuda quem fala e quem escuta. Ou ajuda a curar os dois envolvidos no processo ou não é cura do ressentimento. Por isso, o diálogo curador exige a coragem de ouvir. É preciso colocar-se no lugar do outro, tentando enxergar o problema a partir do ponto de vista dele, tentando enxergar o problema a partir do ponto de vista dele, saber como ele está vendo e sentindo a situação.

Padre Léo


terça-feira, 23 de agosto de 2016

As pequenas concessões


Somos rápidos em conceder a nossos erros desculpas, geralmente àqueles mesmos erros que, nos outros, são vistos como grandes pecados.

Desta forma vai-se fazendo pequenas concessões aos próprios erros e pecados. Concessões que começam assim tornam um coração incapaz de discernir e, em breve, passamos a aceitar pequenas concessões à carne, ao mundo e… ao diabo.

Se hoje encontro uma “desculpa” para o atraso em chegar à S. Missa… depois encontrarei outra desculpa pra deixar de ir à S. Missa (estou cansado…), para vestir-me de modo inapropriado (faz calor… todos usam…), por último perco completamente o sentido que estou na casa de Deus e já atendo o celular, negocio preços, converso…distraio-me e distraio as outros. Se amanhã encontro desculpa para relaxar na vida de oração… logo mais terei descido ao nível do animal irracional que já não reza e não dá o devido louvor a Deus. Se logo mais concedo em rapidamente perdoar as minhas faltas, serei tardo em perdoar as faltas alheias… ou entrarei no espiral de achar tudo como bom, honesto e santo chamando o pecado de virtude, a desgraça de suma glória. Certamente logo mais encontrarei desculpas frescas e bem cheirosas para aplicar sobre a podridão do pecado a qual disfarçarei de “pecadinhos”. E então, entra-se num torvelinho de desculpar-se a si mesmo e ver tudo com naturalidade. Tudo é natural para o homem carnal.

É uma doença apenas dos leigos? Não! Infelizmente a naturalidade de viver em pecado já é uma constante até mesmo entre os consagrados… hoje se desculpam que não tiveram tempo de rezar, amanhã, quem sabe, um pecado grave se torna algo “natural”, depois de amanhã só lhes resta chafurdar na lama. O que hoje é “apenas um pecadinho”, amanhã é monstro devorador e possuidor do tempo e da vida… que não nos pertencem. Passa-se a viver uma “vidinha” em detrimento da verdadeira vida!

Já um poeta naturalista como Juvenal cantava a beleza do pecado sem deixar de notar os espinhos: “Monstravit brevis hora rosam mihi: vix brevis hora praeteriit, sola est spina reperta mihi.” (Mostrou-me por um breve momento uma rosa, o breve momento logo passou, só me ficou o espinho). Para aqueles que não vêm mais que naturalidade no pecado saibam que da rosa encantadora, que causa deleite à vista, ao tato e ao paladar, resta-lhe apenas o espinho que é o que fica como memória na carne e no espírito.
Quem pode dizer que está com o espírito pronto? Quem pode dizer que é impecável? Quem pode dizer que se basta a si mesmo? Da Palavra de Deus brotam três conselhos de ouro para a nossa salvação:
  1. “Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mateus 26,41).
  2. “Portanto, quem pensa estar de pé veja que não caia.” (1Cor 10,12).
  3. “Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar.” (1Pd 5, 6-8).
S. Cipriano de Cartago comentando este trecho da Carta de S. Pedro afirma que o diabo é sim, um leão ou cão acorrentado, mas que só pode morder quem lhe chega perto.
Vigiemos e Oremos. 

Pe. Cléber Eduardo - Diretor Espiritual do Apostolado Esto Vir e Pároco da Paróquia Sagrada Família em Bagé - RS, também acompanha na "Casa de S. José" em uma espécie de Propedêutico na mesma paróquia a um grupo de jovens em discernimento à vida sacerdotal diocesana ou à vida monástica.